27 de set. de 2010

"Sol de Primavera, abre as janelas do meu peito..."


Outubro que te espero,
Nem sei se logo quero,
Ou prefiro o lero, lero, lero, do barulhinho que vem
Zunindo, baixinho, no meu travesseiro
Antes de outubro chegar.

Falta pouco, pouco, tão pouquinho...
E ainda não sinto a casa arrumada,
Não sinto idéias no lugar,
Não sinto o barco no oceano,
Não sinto se rio onde devo parar,
Ou se choro, só, por me apegar.

Ah...!
Não sinto, acima de tudo,
O tanto quanto eu desejava estar
Só um pouquinho mais pra frente,
Antes de outubro chegar.


- E nesses dias, penso, cá, com meus botões, em cada degrau dessa escada que ainda falta pra subir. Penso em cada dor da mesma pancada, penso em mim, parada, mesma estrada, penso em que rumo todos os rumos vão, ou não, fadada. E é assim, pequenina, que sinto a chegada de outubro, e eu sem casaco de lã, sem sapatos de cristal, sem a voz mansa ou mente quieta, quieta assim, sou, sem estar. É primavera, dizem nos campos, não te preocupa, podes chorar. Cada lágrima vai como orvalho e o sol vem pra te enxugar. Mas pra ninguém é tão outubro quanto o outubro acertou ser, e vem sempre como aquele primeiro beijo, que se sabe, mas nunca se sabe, esperado, anunciado, beijado. E acordo estranha e confesso ou não peço, mas é em outubro, sem antes, sem depois, outubro certo, e eu, incerta, temo te beijar o beijo errado.

Foto: webrecados.com

22 de set. de 2010

Psicologia estudantil - Parte I


Escolher uma carreira foi uma árdua tarefa. Apesar de uma área pré-definida, não tinha idéia se seria melhor tentar pedagogia, jornalismo, publicidade, psicologia, direito ou, quem sabe, teatro? Não faltaram lhe conselhos e conselheiros. Entre os espetaculares e os absolutamente furados, era dificílimo diferenciar.

Como qualquer grave decisão que se possa tomar aos dezoito, mergulhou em águas turvas (eram poucos os peixes, alguns os corais, raras as baleias e inúmeros os tubarões...). Levou seu tempo até perceber a presença de simpáticos golfinhos e aprender a usar das próprias nadadeiras.

As dúvidas, porém, que imaginou partirem após a posse de um cone vazio com eco de diploma, só pioravam.


Foto: cutemama.buzznet.com

Psicologia Estudantil e o rumo de seu coração (Parte II)



Dia desses, decidiu mudar de rumo. Iria fazer psicologia. Reiniciar os estudos. Nova faculdade, mais madura. Novas aulas. Novas mensalidades. Novo passo – o “zero” passo, novamente.

Antes do ingresso programado, foi convidada pra dar umas aulas. Assim, acidentalmente.

E, talvez como acontece como toda paixão, acidentalmente, ela se apaixonou.

A paixão queima, tira o sono, dá arrepio da espinha. A paixão meio que enlouquece e ela perdia a fome quase tudo mais que não fosse o objeto de seu apaixonamento.

Dia desses, na saída da aula, uma aluna pediu uns conselhos. Problemas com o marido, que era contra seus estudos.

Dia desses, um aluno confessou-lhe as dificuldades de casa, a doença da esposa, as complicações com o filho, adolescente.

Dia desses, mais e mais pessoas, interessantes, complexas, vivas, preenchiam seus espaços, com olhos atenciosos e ouvidos abertos, a espera do que ela sequer sabia se poderia oferecer.

Mas oferecia. Ela estava apaixonada.

Seriam poucos a entender. Seu rumo eram vários rumos, sua carreira, várias carreiras e suas paixões... estas eram, agora, o mais puro, incondicional AMOR.

21 de set. de 2010

Queijo com goiabada.



Pensava que a sua vida de “casada” seria diferente.

Big step isso de morar junto.

Em sua cabecinha programável, tinha elaborado diversas listas, para cada aspecto da vida que seria a vida que iria ter. Estava tudo no máximo controle.

Teria que tomar banho todas as noites antes de dormir. E tirar o rímel, mesmo que chegasse exausta (ninguém merece olhos borrados logo de manhã). Não poderia mais faltar pão em casa. Alias, teria que programar o jantar (quem vai cozinhar? Toda noite? Ai...)

Nada de blusa velha pra dormir. Deveria providenciar novas camisolinhas, diferenciadas, para os diferentes períodos das suas luas.

A casa deveria estar sempre limpa. Trocar toalhas e lençóis com mais freqüência. Cheirinho de lavanda na cama. Nada de bagunça. Gaveta certa pra cada coisa, roupas guardadas no armário. Tudo dobrado. Afinal, seria um dobro.

E foi tudo tão assim, inesperadamente, rápido! Que bastou uma semana.

Sonhos de “alice” pelo ralo, junto com cada plano de um lar e harmonia perfeita.

Não tinha tempo de ser a “esposa” do conto de fadas. Não tinha forças, nem sabe dizer se tinha a instrução necessária pra isso.

Preocupou-se. Não tinha nada pra jantar. Ela era um desastre completo. Melhor o divórcio antes até de casarem-se, sem dúvidas.

Ele chegou. Ela acomodou-se, olhar distante, no canto do sofá.

Ele abriu a geladeira, o armário... pegou um pacote de cream crakers e manteiga. Sentou do seu lado e pôs longo beijo em seus lábios. Amanteigados.

E nas manhãs que acordava com olhos negros e borrados, ele também a beijava, sem parecer notar, ou como se aquele fosse o tom mais lindo do domingo.

Ela sorria. Não sabia nada mesmo dessa vida dobrada. Mas descobriu, feliz, que não eram precisas as dobras dos lençóis.


Foto: http://www.pampasonline.com.br/brasil.htm

13 de abr. de 2010

Walking by.


Trocou seu chão por cascas de ovos.
Trocou seu chão por espelhos, de aumento, de sombras, de sobras.
Em um chão traçado em lápis, ela corria riscos, não alçava vôo, nem encontrava respostas.
Foi em um chão sem chão que seus pés caíram,
em um chão sem chão que suas lágrimas escoaram
e ninguém amparava, ninguém ligava,
era um chão sem dono e não um ninho.

Daquele chão não se voava, daquele chão mal rastejava de tão leve que pisava e se caísse, (ah, se caísse!) era um chão estraçalhado aos seus pés o que encontraria. Ela que sabia voar, ela que era filha do vento, ela que amava passos largos e pesados quando em solo firme, trocou seu chão por cascas de ovos, e todos os seus passos eram não-passos, não-possos e todas as suas vozes era não-vozes, não-vezes, e todos os espelhos apontavam única e exclusivamente para ela - não-ela.

25 de nov. de 2009

Por uma vida menos bagunçada...


Desejava queimar todo e qualquer conto de fadas e príncipes encantados. Príncipes não existem. Não existem. ponto.

Olhava outra vez a cama bagunçada. As roupas espalhadas, toalha molhada, sapatos... A cadeira do quarto cheia de livros. Pra que mesmo perdeu o sábado prendendo estantes? Não importa.

As coisas dele se multiplicavam nos espaços vazios. Pia do banheiro sempre molhada, escova nunca na gaveta. Tesourinha - melhor não comentar. Havia papéis por todo lado, copo sujo sob a mesa de cabeceira, farelos de biscoito pelo edredom. Ele era amplamente destituído da capacidade de arrumar a cama, lavar os pratos, ou apenas colocar qualquer coisa no devido lugar. Será que estaria um pouco enraivecida?

E quem foi mesmo que disse que ela devia ansiar por aquilo? Pra que tanta pressa? Essa ansiada “junção” requer profunda maturidade, e agora era sabia o porquê. Nada de amor cor-de-rosa. Amar dá trabalho! Será que essas mocinhas, todas elas desesperadas por maridos, sabem disso?

Ah... Alguém devia ter ensinado na escola – muito mais importante que as técnicas de conquista de que fala a música, são as técnicas de tolerância à total falta de iniciativa masculina. Ah, Homens. Tão fortes certas horas, tão sonsos em outras.

E dizem que a culpas é das queridas mães, que resolvem criar principezinhos, incapazes de amarrar seus próprios cadarços... Será?

Arriscaria a campanha: Filhos de hoje, maridos de amanhã! Crie o "partido" que você gostaria de oferecer a sua filhA. Com “A” maiúsculo. Ou se inspirem no genro dos seus sonhos! Vai que funciona...

*Resolveu fazer uma pesquisa de mercado (já que pouco gosta de se intrometer em relacionamentos alheios...). Interrogou uma amiga, às beiras da festa de casamento:
- Namorei sete anos e decidi terminar. Ele era difícil demais!Cansei das briguinhas, do stress, da cobrança, da bagunça! Agora, tenho um ano com Paulinho. Ele disse que queria casar, eu topei.
- Hum... Então ele é mais “fácil” que o primeiro! Vocês devem combinar melhor...
- Que nada, amiga! Capaz de ser até mais difícil que o anterior! São novas cobranças, novas bagunças... Antes eu pelo menos eu conhecia bem todas!
- E você topou?
- pois é. E deixa eu falar devagar, pra não ser mal interpretada. Veja bem: não digo que é pra casar com qualquer um, sair correndo pra porta da igreja, não me entenda errado... Mas amiga, perceba, primeiro você tem que definir o que quer: se quer mesmo casar, se quer uma família.
- E depois?
- Depois, meu bem, a gente amadurece... ! E quando digo “amadurece”, quero dizer: entendemos que homens são homens, criamos nossos anticorpos, desenvolvemos nossa tolerância e fazemos o melhor possível pra mandar despercebidamente. Vez ou outra, funciona.se eu tivesse a maturidade de hoje antes, provavelmente teria casado com meu antigo namorado...

E lá se vão mais alguns quilinhos de sonhos e idealizações... homens certos, homens errados, maturidades... muito difícil aquilo tudo de uma vez!

Mentalmente, re-escutava o diálogo pré-nupcial, enquanto ele ajeitava a gravata.

Um beijo de café, e porta batida.

Não, ela não teria o resto da manhã pra arrumar aquela bagunça. Da última vez que checou, também tinha um emprego, e nos dois turnos - ou seja: restavam-lhe os segundos contados pra agarrar um iogurte e sair.

Olhou calmamente ao redor.

Seu quarto já não era o mesmo. Via o nome dele escrito em toda parte. E nos lençóis, o cheiro inconfundível, masculino, de seu amado. Lembrou do beijo de bom-dia. E da alegria da noite passada. Do abraço apertado antes de adormecer.

Bendita bagunça, pensou. Arrumaria tudo quando voltasse. E torceria, enfim, para que tudo estivesse mais uma vez bagunçado, na manhã seguinte.

Imagem: http://www.recomendocomcerveja.com/2008/03/03/bagunca-evolutiva/

12 de set. de 2009

Desejava ser mais que palavras, mas sentia que escrito era sempre o melhor de si.



Escrevia doce e lento, marcando suas palavras pelo tempo das cidades. Grafava como seus dedos pudessem tocá-la ao tocar cada tecla, como se ali pudessem ser apenas o que são: algo os unia entre uma e outra palavra anotada, algo de cúmplice dominava-os, e impossível resistir...

Tentou muitas vezes se afastar. Chega disso, pensou. Mas aquele mesmo impulso do primeiro dia, a curiosidade que amarrou sem dó seus olhos e seu coração as batidas do dela, aos seus olhares-sorrisos e inexplicáveis, aquela mesma curiosidade o conduzia de volta ao local e hora marcada. Lá estava ele, esperando que as palavras o lembrassem o gosto de um beijo passado.

Deve ser alguma mágica. Nunca sentiu parecido. Palavras não pedem licença. Aberta a página, ela te derrama qualquer coisa muito antes que se possa escolher. Se caminhava na primeira linha, aquele era, sem dúvidas, caminho sem volta, guiado por algo de paixão, algo de vontade, algo de raiva e frustração, impossibilidade, algo de saudade.

Até que suas palavras começaram a sumir. Esvaiam-se, dissipavam-se com o vento. Toda a escrita dissolvia-se, tinta frágil de caneta ou papel batido de fax mal passado, apagando sua estória e levando, impiedoso, o passado deles, a voz dela em seu ouvido, o carinho no pescoço, a presença.

Ausente em texto, ela seria esquecida, e ele esquecido, e suas vidas seguiram o rumo comum das pessoas que não escrevem sobre si mesmas. Das pessoas que não escrevem sobre o amor. Das medrosas demais para estampar seus lábios num papel, de modo que o outro leia, e beije, num encontro encantando de lábios-palavras.

O texto se foi e seriam agora apenas passagem. Novos textos cobriram seus contos. Novos beijos apagariam suas falas. Era o fim do portal que o guiava até ela, a interdição da ponte entre seus planetas distantes, ligação cortada e celular fora de área.

Sem as palavras, eram menos ainda que comuns. Era apenas the trobled water, passada e revirada, sem ponte, sem barco, sem nota. Sem o outro para lay me down, ou ease my mind.... Sem palavras-mãos pra acalentarem, suaves, seu rosto. Sem bote salva-vidas. Conto de fadas. Ou de bruxas. Não havia back-up pra tudo que podiam, mas deixaram, por esquecer.

18 de ago. de 2009

Mais uma ridícula carta. De amor.

Querido amor,

Vim te descrever algo especial do meu dia.
Vim por aqui porque aqui guardo minha poesia. E quem diria? Por tantos caminhos, vim descobrir um eletrônico pra mim mesma... Torço pra que minha eletrocarta chegue até você, pra que você me encontre aqui, falando de dentro de mim.

As estradas da Bahia são lindas. Nessa parte que passo, em especial, estou sempre rodeada de serras e chapadas, verdes e extensas, das quais absolutamente não sei o nome (essa minha falta de cultura geográfica!), mas conto com saber reconhecê-las se voltar por aqui, de tanto que as olho e nunca canso.

O sol em Barreiras é mais vermelho que de outros cantos que já vi. Ou mais laranja, tenho minhas dúvidas. Essa gema gigantesca iluminando o dia, forte e resistente como as pessoas parecem ser aqui. É um sertão com água, já que vejo rios em todo lado, mas sinto cheiro e gosto de sertão. É o sol do sertão que me queima a pele e o seu calor que resseca, sem dó, meus lábios.

Eu amo a estrada. Amo olhar pela janela e ver os lugares passando, amo me sentir viajante, andarilha sem muitos rumos, amo sentir que o mundo é tão grande, amo saber que meus pés pisam novo chão, que meus olhos vislumbram estas vistas pela primeira vez. Quero que me prometa, ou ao menos vigie essa minha promessa, de que mesmo quando achar meu lugar nesse mundo vasto, não vou deixar de juntar e levar tudo de mim ao desconhecido. Minha alma vibra explorando o novo. E estranhamente, esses meus passos aqui me aproximam do desconhecido que carrego por dentro.

Tenho viajado em silêncio. Até a idéia do som do carro é barulhenta demais pra mim. Deixo tudo desligado, exceto o coração. Não haveria mesmo música mais doce. Ele toca o dia e a saudade de você. Ele toca lembranças que nunca lembraria, palavras que jamais teria dado atenção. Gestos. Ele toca tanta coisa sua que não sabia que gostava. Ele toca a música de todas as coisas que quero dividir com você. Toca essa vontade de te ver e abraçar, de tanta coisa que ainda nem vivemos, mas que me vem, em música, exatamente agora.

Não bastasse essa alegria, hoje ganhei um presente. Peguei a estrada um pouco depois do programado e segui o pôr -do-sol. Sim, estava ali, estado de contemplação, justamente naquela hora do dia que eu mais gosto – quando o céu torna-se rosa, e mistura com os tons de azul, fazendo lilás... um degradê de tons de fogo alinhados com as montanhas. Não deve haver mais lindo horizonte.

Ah, sim, mas foi um presente pra mim. Sei que pode rir de tanta presunção, afinal o céu é céu e o sol é sol, mas este não era um céu ou sol qualquer. Era o meu sol, incandescente, espelho do mesmo ponto que energizo em mim, agora vivo e me beijando a pele. Era o meu céu, misturado em todas as minhas cores, com nuvens cor-de-rosa pairando sob meus corpos. Aquele, meu amor, foi o céu que sonhei, presente desembrulhado que só encontrei por ter vindo encontrar. Claro que chorei, como choro agora, só de lembrar... pessoinha chorona, essa eu.

De resto, a vida continua a mesma. Não cheguei a nenhuma grande solução, não achei a bendita resposta pra meu caminho daqui pra frente. No céu do meu sonho, agora real, não vi nenhum sinal ou seta pra me direcionar. Não achei a chave para meu mistério.

Só posso dizer que, se choro, é de alegria, e que a ausência das respostas não consegue esmorecer meu coração. Sei que tem um caminho pra mim, e não sei nem me explicar porquê, mas não estou ansiosa pra saber. Esta noite, apenas agradeço. E rezo pra que amanhã eu possa, mais uma vez, ver o pôr-do-sol. Quem sabe, nos seus braços.

Com amor e saudade,
Liana.

22 de jul. de 2009

"Eu rabisco o sol..."


- Você não vai acreditar... bateram no meu carro bem na entrada do trabalho essa manhã.
- E você?
- ...
- Ficou tudo bem com você?
- Hã...? Sim, tá, comigo está tudo bem...

Seus ritmos podiam até ser diferentes, mas os freios pareciam-lhe bem vindos.
Naquele momento, ela freou. Não buscava muito além de carinho em sua vida. Grandes amores são feitos de grandes gentilezas, lhe ensinaram.
Às vezes ela se perdia nos barulhos de seu mundo, às vezes se escondia atrás do áspero, tanto que era o medo de começar, medo de se deixar ir novamente, medo das tempestades e reviravoltas do caminho, de não estar pronta e incorrer nos mesmos, velhos, conhecidos erros. Tantas vezes não se sentia a mulher que gostaria de ser... Tantas vezes não se sentia pronta realmente para um outro alguém sua vida. Medo de machucar, medo de cair, medo de falhar e sentir outra vez... pequena.
Mas qualquer que fosse o ritmo, seus pensamentos revoltos não podiam frear seu coração. Sim, ele ainda dita regras por aqui. Os receios e dúvidas que rondavam sua cabeça desapareciam pelas batidas em seu peito – você pode estar errada, tudo pode dar errado, você pode não conseguir e o que restar serão novas marcas, algumas cicatrizes, uma ou outra recordação. Sim, pode acontecer. E pode acontecer... algo novo.
Pouca diferença faziam suas idéias, quando seus olhos brilhavam daquele jeito. Já não havia escolha, não havia ponderações, não havia. O caminho sob seus pés era o seu caminho. Ainda ensaiavam o ritmo do caminhar. Certeza apenas de que “sim, estava tudo bem” com ela.

21 de jul. de 2009

"Me conta agora como hei de partir..."


Vivia na ponta dos pés. Para os poucos que notaram, parecia estranho. Nem era tão baixa. Nem era baixa, em verdade. Caminhava na ponta dos pés, como se quisesse estar um pouco mais perto de Deus, pouco mais distante de tudo que fosse humano, terreno.
Coloridas sapatilhas, andava como quem baila.
(...)
Durante a conversa, sentiu algo estranho. A sola de seus pés, apoiada no chão. Calcanhares alinhados, de modo que era sugada pela força do movimento. Da ausência dele. Estática. Ela era chão, firme, parada na esquina. Ele perguntou se estava bem. Era a primeira vez que a sentia perto. Fez que sim com a cabeça, mas negou-se a emitir sons. Qualquer movimento em falso, qualquer barulho, poderia afastá-la daquela verdade.
(...)
Ele fez de tudo para mantê-la ali, mas era tarde. Malas prontas sobre a cama, naquele momento soube que ela jamais voltaria. Pensou no que dizer para despedir-se e não disse nada. Despedia-se desde o primeiro dia. Sempre soube que ela iria. Sempre soube que era passagem, e por isso alegrou-se e despediu-se em todos os momentos que tiveram. Estranho, pensou. Ela, na ponta dos pés, dirigiu-se silenciosamente até a porta. E partiu.
(...)
Ao passar por ali, sentiu saudade. Vaga lembrança de um dia em que seu mundo foi outro. Quando sentiu sem medo a presença dele e agarrou-se, também sem medo, ao que conheceu como amor. Ela o amou. Amou seus passos aqueles dias. Gostaria de encontrá-lo, de dizer-lhe isso, de dizer que nunca passaria, que não se deixaria esquecer. Viu a senhora do outro lado da vitrine, apoiada na ponta dos pés. Achou estranho aquilo, uma mulher na ponta dos pés. (...) Não era uma vitrine.

27 de jun. de 2009

Renascimento e Inipi.


Ninguém perguntou se estava preparada. Talvez seu primeiro nascimento também tenha sido assim. Talvez nunca se esteja preparado. Mesmo que se tente. Mesmo que se deseje. Fato é que estava ali, despreparada e corajosa, no afã de achar que tudo é possível, alcançável, realizável. Na ingenuidade de sua juventude. Obstáculos existem para serem vencidos, pensou. Mas não era tão simples assim. Havia o medo. Havia a dor. Havia montes e montes de poeira acumulada debaixo dos tapetes, e ela não viu quando tudo se tornou tempestade de areia... tentou controlar, lutar contra o que quer que queria levá-la, viu seu coração disparar e sua mente acelerar, desesperada. Não, nada adiantava. Não respondia a si mesma. Ou respondia a sua alma. Ainda não sabia distinguir. Enfim, rendeu-se. A dor dominava seu pequeno corpo e tudo que conseguia pensar era em nascer. Lenta foi sua morte, lento o caminho até a pequena porta, mas alegre o encontro com o luz. “Por todas as minhas relações”. O medo se foi, mas ainda sentia a dor e a vontade de livrar-se de toda a bagagem, de tudo que não lhe servia mais. Queria expulsar tudo que já não lhe cabia carregar. Caminhou trôpega até o rio, liberta de tudo que não fosse a si mesma, e banhou-se, como pela primeira vez. Ouviu o rio dar-lhe boas vindas. Ouviu a terra e o vento acolherem-na nos braços. Sentiu o fogo em seu coração. Era sua casa aquela floresta. Cada pedaço dela, era ela, multi-partida. Era a luz do sol e as gotas do orvalho. De fora do útero, sentiu-se imensa. Sentiu-se livre. Sentiu-se amor.

"E mesmo assim fica interessante, não ser o avesso do que eu era antes, de agora em diante ficarei assim... Desedificante."


“She knows she is beautiful. But she is not yet sure what to do with her beauty”

“- But, why?

- Life is just more interest with you in it.” (*)


E na sua busca por si mesma, e na sua busca por tudo que é profundo, ele era a companhia perfeita. Como um homem invisível, quem estava para preencher seu coração com todo aquele amor, tudo aquilo trazia e nunca soube como usar, alguém para receber todas as flores que guardara, alguém para querer bem. Sem maiores demandas, sem maiores descontentos.

Podia apenas gostá-lo. Descobri-lo aos poucos e mostrar-se, igualmente lenta, página por página de uma nova estória. Teriam tempo antes do encontro. Desta vez não se perderia em outro mundo. Estava ocupada descobrindo o seu.

Ele lhe falava com poucas palavras, ricas e belas, mas seria preciso calá-lo. Calá-lo antes que o que dissesse fosse distante do que queria, antes que suas palavras a afastassem do amor que sentia, antes que a pedisse para deixá-lo. Desde este instante, parou de perguntar.

Era novo demais o mundo o qual perseguia, e tinha medo. Ele era sua ponte com a realidade e aos poucos, ele deixava de ser real. Sua jornada era por conta própria. Ela ainda esperava vê-lo no fim do túnel. Ainda o veria no final do túnel?



(*) do filme, Fatal, de Isabel Coixet.

14 de jun. de 2009

"Você pode ir na janela, pra se amorenar no sol, que não quer anoitecer"



Quatro horas mais, quatro horas menos, fazia contas em sua cabeça. Se ao menos se encontrassem no transitar, não se sentiria tão sozinha.

“Não se preocupe” – ela falou. “Nada vai passar despercebido aos meus olhos”. Dias depois, perguntou-se se enxergava demais. Perguntou-se se via o que já não estava, se via além do que esteve, ou se o que vira tornara-se invisível aos olhos.

Como conduzir-se agora? Cada passo seu parecia afastá-lo um passo a mais, ou ele se afastava em passos completamente independentes dos seus, ou caminhavam para lados opostos mesmo quando desejavam se encontrar... Desejavam se encontrar? Será que é difícil me ver aqui, com você ainda dentro de mim? Seria mesmo tão difícil acreditar?

Seus olhos tropeçaram nas dores de desencontros antigos. Lassos. Cansados. Ali, paralisada no meio do caminho, sentiu-se no exato lugar onde esteve tantas outras vezes. Não sabia como havia retornado, o percurso lhe pareceu tão diferente! Mas ali estava ela, outra vez. Precisa mover-se, e rápido. Conhecia da ferrugem que lhe tomaria aos braços se insistisse. Conhecia as sombras do lugar-comum, outra vez morreria afogado, seu coração.

Desta vez, porém, tinha calma. Não iria gastar, veloz, o pouco ar que lhe restava nos pulmões. Não. Desta vez nadaria, suave, até a margem mais próxima. Buscaria uma linda, solitária e tranqüila praia, para ampara-se até o fim da tempestade.

E a tempestade era o silêncio. Se antes se encantaram, juntos, ela passou a cantar só, e agora quase não canta, é só saudade do encantamento. Não canta por saber que a sua música ecoa medo da despedida antes mesmo do encontro.

Apenas por isso, respeita o silêncio. E por isso odeia o silêncio. E por isso grita, vez ou outra. Mas, inevitavelmente, ainda sorri quando se lembra. Quando repete o disco que tocavam suas palavras. Ela escuta o mesmo disco e seu coração sorri.

Numa estrada fria e árida, ela segue assim. “uma metade cheia, uma metade vazia”. “Uma metade tristeza, uma metade alegria”. Ainda não pararam seus passos e ela segue, esperando, a magia da verdade inteira.


“E se o silêncio era amor

Ela sofria porque não sabia escutar.”

12 de jun. de 2009

It´s a busy highway...


Meu coração está ocupado.
- Riam, todos,
Façam suas piadas,
Seus irônicos comentários
Tentem me despistar
Com mapas e quilômetros

Meu coração está ocupado.
- Banalizem, todos,
Zombem explicitamente,
Suas tensas risadas
Profanem meus sentimentos
Com condições e ampulhetas

Meu coração está ocupado.
- Apunhalem, todos,
Envenenem meus pensamentos,
Seus pessimismos e desilusões
Armem-se de tudo que conhecem me abalar
Com seus amargos desencantos

Meu coração está ocupado.
- Questionem, todos,
Apresentem suas teses,
Seus elaborados discursos
Racionalizem meu processo
Com termos e contratos

Meu coração está ocupado.
- Riam, banalizem, apunhalem e questionem,
Despistem, profanem, armem-se, racionalizem
Com piadas, risadas, desencantos ou teses,
Com tudo mais que pensarem importar

Não ignoro quanto de mim compõe-se em "todos".
observo atenta cada um dos "todos" que moram em mim,
assisito a guerra travada em tabuleiro
e o movimento das peça, cada velha jogada
na dança distraída de uma nova batalha.

Ainda assim encontro paz -
Pois meu coração está ocupado,
e isso independe dos protestos, das jogadas.
e isso independe dos conflitos.
Meu coração está ocupado, pleno e feliz.


Foto retirada de - http://perdidoseimperfeitospensamentos.wordpress.com/2007/12/

8 de jun. de 2009

Estranha noite.


Não era uma tempestade, era apenas vento. Entretanto, batia de tal forma as janelas, que seu coração disparava de medo. Vento de inverno e lua cheia. Ele parecia irritado aquela noite, era uma noite de coisas estranhas. Ainda acordada às cinco da manhã, após incalculáveis tentativas de dormir, após abrir e fechar mais de dez vezes o computador, finalmente, desistiu. Ficaria acordada até clarear, esperaria a manhã, quando tomaria um café, seguiria para o trabalho.

Seu coração não aquietava.

Mais cedo, dirigia perto do farol e um vento estupidamente voraz sacudiu as pessoas na rua. Sentiu o próprio carro desequilibrar no asfalto, ouviu um estrondo, percebeu expressões tão pasmas quanto a dela vindas pelo lado de fora. Continuou sua rota, e mais a frente um curto-circuito em um poste – apagam-se as luzes por toda a rua, por outras ruas vizinhas, apagam-se as luzes em seu trajeto. Achou esquisito, e se assustou um pouco mais, mas ainda não havia medo.

Um menino chorando na escada do supermercado. Seu medo foi menor que a correspondência. Perguntou. Ele tinha sido agredido por outro passante, com quem cruzara instantes antes – negro alto e forte, com expressão tão pesada quanto a energia a sua volta. O menino foi apunhalado por uma lata de óleo, nas costas. Ela não sabia o que ele tinha feito. Não sabia se tinha feito alguma coisa. Era muito magro e não passava de um metro. Franzino. Devia ter dez anos. Quis abraçá-lo e dizer que a dor ia passar, mas apenas chamou o segurança. e falou duramente seu advoguês. Foi embora pensando em que tipo de ser humano se tornou. O que o mundo fez dela? O que fizera de si mesma? Entristeceu. Algo era maior que a compaixão. Perguntou-se se era medo.

Seguia a noite, acendeu um cigarro. Pegou uma taça, bebeu um pouco. Não costumava fumar. Concentrou-se na fumaça. Tentou tragar. Achou que era em vão. Não controlaria os ares aquela noite.

Voltou pra casa. O vento não a poupou. Nem um pouco. Nem por instantes. Ele brigava com as janelas e derrubava coisas. Despertava ruídos. Sentiu medo. Medo das coisas que não se explica. Quis pegar o telefone, ligar. Não o fez. Era seu ritual de passagem para vida adulta, quando agüentaria sem quebrar, nas ventanias e tempestades.

Não resistiu, acendeu as luzes. Ainda não conseguia enxergar. Rezou. Lembrou do protagonista do filme. O que afastou a mulher invisível escrevendo sobre ela. Pegou de volta o computador. Desatou em palavras, na esperança de afastar seus fantasmas e retomar seu sossego. Ah, era estranha a noite.

4 de jun. de 2009

Uma ou outra noite.


Uma súbita vontade de brindar com você.

Abrir a garrafa guardada, inaugurar as duas taças que ganhei de presente e para as quais sorrio sempre que abro o armário.

Vontade de ajeitar a sala, deitar nas almofadas, ficar em silêncio: o silêncio dos amantes, não constrangedor, não indelicado, o silêncio quebrado apenas por uma ou outra batida mais forte em seu peito, um ou outro beijo, ou pelo barulho distante de ondas do mar.

Vontade de observar com calma os traços de seu rosto. De sair decorando cada sinal, mesura exata de uma ou outra cicatriz, as pequenas marcas da sua história, alegrias, cansaços. Decorar seu jeito de espreguiçar, de rir, seu olhar compenetrado ou distraído. Decorar cada pedaço de você até montar um livro, ilustrado com suas gravuras.

Bater uma ou outra foto, apenas de cenas que tivessem cheiro, para perfumar meu quarto na sua ausência. E respirar você, numa pausa encaixada em seu pescoço que me levaria a quase adormecer, de êxtase e embriaguez.

Vontade beijar o canto de seus lábios por um longo, longo tempo, até que as bocas se procurassem, escorregassem uma na outra; até me aninhar em seus braços, enquanto você despenteia meus cabelos.

Brindaríamos com os olhos da intimidade, distraídos com a paz de um dia qualquer: a noite não marcada em calendário. Só mais uma noite – uma nossa noite - depois de acertamos os relógios para chegarmos, uma ou outra vez, juntos.

Colocaria um vinil na vitrola. Teríamos vinil e vitrola, e por insistência minha, logicamente. Você preferiria um ou outro giga de alguma coisa, em formato codificado demais pra meu entendimento. Riríamos da minha antiguidade. Sorriríamos à toa.

Antes de dormir, penso na dança que nunca dançamos, na noite que foi curta demais e que, de tão longa, ainda é, que ainda acontece pela sala, por toda a casa. Pergunto-me se a física quântica explica noites que se perduram no tempo e no espaço. Pergunto-me se alguma coisa explica. Pergunto-me quanto tempo vai durar. Pergunto-me se você saberia mais das respostas do que eu. Fico intrigada em minhas perguntas.

Penso tudo que ainda não sei sobre você. Em seus maus-humores, nos estresses cotidianos, nas preocupações. Penso no que tira seu sono e no que o traz pra você. Penso em como você deve ser nas manhãs de domingo, e o que preferiria pro café, almoço ou jantar. Penso em todas as preferências que desconheço. Penso no que detestaria e no que amaria a meu respeito. Penso se seria terno, e se me abraçaria em noite como essa. Se me abraçaria uma ou outra noite. Fico intrigada em meus pensamentos.

Ainda toca a música que não dançamos.
Disseram que dançando conhecemos o outro.
- Dança comigo antes de dormir?



Foto retirada de: http://roberta.atisano.zip.net/

1 de jun. de 2009

Outono ou nada...



É outono em meu peito. As folhas caem como se viram as páginas, e sigo, repaginando minha estória. É outono em meu peito. Vejo a sombra do inverno cobrindo a relva, enquanto os pés passeiam pelos feixes de luz de um sol que adormece. É outono em meu peito. A chuva cai, e sou a chuva, fluindo, derramando, alimentando a terra fértil de meus pensamentos, para evaporar em leveza e densificar em matéria. É outono em meu peito... Ao contrário do que pensam, sou feliz no outono. Minha alma brinda e comemora cada pedaço de calor que experimenta, dedicando-se com disciplina a longa faxina que antecede o inverno. Abençoado o sol entre os dias foscos da estação da aurora.
Sem pressa, sigo e percorro em paz os caminhos do outono - ele está dentro, tanto quanto fora de mim.
Sim, é outono em meu peito.



Texto escrito no outono/2009.