7 de abr. de 2012

"Eu tranco a porta pra todos os gritos. E o silêncio também está lá fora..."



Sem explicação, procurava por chaves a todo momento.

Como uma espécie de toque, hábito antigo, veneno anti-monotonia. Uma dessas compulsões incontroláveis e inexplicáveis: portas fechadas a instigam, inquietam, atraem...

Admirava o valor da reserva, o cuidado, as precauções com o que se guarda. Porque se guarda? Pergunta.

Contudo, não a levem a mal: sua curiosidade ultrapassa, em muito, portas alheias. Estendia-se, justamente, nas portas auto-trancadas - naquelas que escondia de si mesma, entre cadeados, baús, fechaduras quase intransponíveis, dos quais evitava lembrar ou perceber...

É a curiosidade pela própria sombra, pela escuridão dos passos seguidos, quando o andar parece desmotivado ou esmo; pelas palavras não proferidas, ou pelas gastas de tanto usar, mas que não saberia de onde vieram; pelos gestos que negava externar ou pelo que quer que conduzia seus gestos mais cotidianos e banais.

Todos trazem suas portas lacradas, suas caixinhas de reserva: temidas, ignoradas, disfarçadas. E tantas vezes repetia: não há mais nada o que procurar.

No entanto, no mais inusitado dos momento, recorreria as suas portas secretas, acessaria o seu escudo e suas armas, lutaria como uma total desconhecida, com forças nunca antes vistas, com vigor nunca antes sentido, capaz do que nunca pensou ser capaz.

E no entanto, sempre que se sentisse derrotada, recorreria as suas portas secretas, acessaria um arsenal de ataduras, ungüentos, colírios, antídotos - técnicas milenares para recuperá-la e trazê-la de volta do mais profundo dos profundos.   

Naquela tarde, perdeu a conta do quanto de si escoou por esquecer suas portas entreabertas.  Admirava as portas bem trancadas, anti-pressão, anti-vácuo, anti-bisbilhotagens. Portas hermeticamente fechadas, como se diz por aí.

Sim, estava sempre a procurar por chaves e quase nunca trancava suas portas. Exceto aquelas que trancava para si mesma.  


Crédito da foto: Henrique Nardi (http://abaribo.blogspot.com.br/2009/06/paula-orsi-cruz-porta-entreaberta.html)  

2 de nov. de 2011

Uma vírgula, e ponto de seguimento...





Sim, sim, sim! - gritava para si mesma. 
- Sou uma mente confusa...

Por vezes desejava sentir uma certa solidariedade emocional, a compaixão dos que sofrem ou se lambuzam de amores tórridos, dos que temem, dos que nunca temem, dos que se entregam, dos que se esfregam...

De outras, desejava ser apenas. Apenas, assim, unicamente, exclusivamente, ela. Desejava escapar do medonho roteiro de ser mais uma, personagem esquecível em um mundo cheinho de esquecimentos...

E lembranças? O que faria então com sua memória elefante? Esqueceria realmente todo o esquecível, classificaria “esquecibilidades”, escolhendo o que ou não guardar em uma caixa antiga de recordações?

Devia ater-se a caixas e caixas de lembranças lindas, ou soltá-las em bolas de sabão, balões de gás,  daqueles que nunca, nunca se sabe onde irão chegar...?

Era a primeira vez que ele falava daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente sentia-se como se fosse.

Ele, no seu mundo trancado a cadeados, carregando nos olhos o mistério dos que pouco falam, dos que escondem pensamentos em abismos mais fundos do que os acessíveis ao mais X dos X-men, mas, contudo (ela sabia...) sentindo – e carregando sentimentos mais “tagarelas” do ela própria poderia falar, porque ele sentia tanto, porque aqueles olhos despejavam mares, rios inteiros, e pôr-do-sol, e noites de lua, e cânticos, e poesia...  

Era a primeira vez que ele falava daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente sentia-se como se fosse.

6 de set. de 2011

Como se não bastasse.


Parecia mesmo que não bastavam um ao outro.

Enquanto percorria, confuso, os retratos e maus tratos pelo computador, enquanto relia e-mails trocados sabe-se lá quando, ou quanto, ou com quem...
Matava-o a duvida. Dividi-la seria repartir parte de si mesmo, mas se escolher, sem desejar, sem opinar. Não. Não a veria outra vez, para outra vez repassar todas as noites, os retratos, os maus tratos registrados em seu computador.

Maldizia o mundo tecnológico. Preferia as cartas, assinadas ou apócrifas, mas de próprio punho, dignas de precisas investigações caligráficas e combatidas em duelos decisivos travados no final da tarde cinza de uma sexta-feira.

A espera do fim de semana não o ajudava em nada. Verificar registros em busca de conversas apagadas, ou passadas, ou que nem sequer existiram, mas desde então ressonavam em seus pensamentos, como os mais doces cânticos de amor – ou de morte.

Reservava-se, no entanto, o direito de não pertencê-la. Nos braços de outras, anestesiava sem culpas seus pensamentos mais sórdidos e descontava, ah, descontava, cada uma das traições não traídas, ou traídas, extraídas, naqueles poucos momentos de gozo e de prazer.

Parecia mesmo que não bastavam um ao outro.

E ainda assim ela era tudo que ele queria, tudo que não o sossegava, que o cegava, que não o deixa dormir após prazeres, lazeres, afazeres inventados para preencher seus medos-vazios.

Na janela ao lado, ela dormia.

Sonhava com longas noites de amor e brigas ferrenhas e violentas, revezando seus sonhos entre dores e alegrias, igualmente plenas. Ela dormia, sem escutar angustias ou gemidos advindos do quarto ao lado.

Ela dormia a felicidade dos que ignoram e, ainda assim, sonham.

10 de mai. de 2011

Porque Vinicius disse pra mim... (em sussurros)




AMOR


Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.

Vinicius de Moraes


*foto extraída do site: http://diamantesdeacucar.blogspot.com/2010/06/ser-feliz.html

Porque não?



Porque pra mim o tempo não passa,
Porque me inspiro como respiro
Porque saudade se tem até de perto
Mas você não me parece tão distante

Porque desejo acordar nos seus braços
Porque conheço detalhes de seu riso
Porque um sonho pode ser só mais um
Mas sinto você, bem real

Porque nossas realidades se encontraram
Porque foi no mais exato e especial lugar
Porque não sei se foi só mais um golpe da magia
Mas é por você, e só você, que me encanto.

7 de mai. de 2011

O mundo aos meus pés...



Eram pés cheios de calinhos. Não que desgostasse, pois não se reclama de pés tamanho 34, ensejadores oficiais de elogios fofos dentro e fora dos sapatos.

Seus calinhos eram o que eram: marcas secas de longas caminhadas, discretas rachaduras, do tempo, das pegadas firmes, das mal pisadas, cicatrizes próprias de suas escolhas.

Ainda assim, resolveu livrar-se deles. Verdadeiras damas têm pés finos, macios, agradáveis, pele suave e hidratada em todos os pedaços.

Ora, os seus calinhos destoavam dos standart atual de delicadeza feminina. Era preciso enquadrar-se, curvar-se aos moldes adocicados de beleza, assim como seus não tão finos pés.

Marcou consulta. Um especialista. Analisou calo a calo, linha a linha, impressionado. Parecia mesmo assustado. Meus pés, me olhavam ainda mais assustados. Era um de dia difícil para eles.

Acalmei-os. O especialista ajudou: massagens e cremes perfumados, refrescantes... até a lixa foi gentil com eles.

Sai feliz e satisfeita. Tinha pés como os das mais belas, pés de artistas de cinema! Uau!

Uau! Uau, au, auuu, ai, ai, aiiii, poxa vida!

Como dói.

Foi isso. Meus sapatos me detestam. Todos, todinhos, só restaram umas velhas havainas, porque elas não odeiam ninguém, coitadas.

Era como se tivesse desaprendido a andar, de tão desajeitada que fiquei. Ai! Outro pedacinho que se contorcia, as voltas com as tiras de minhas sandálias vermelhas: lindas e cruéis.

Meus pés retrucaram. A cruel era eu. Lapidadora injusta de calinhos de proteção!

Quem mandou tentar andar com pés dos outros?

"Você me ama exatamente como eu gostaria..."


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Sorriu, como para um espelho.

Não sabia exatamente como seria ser amada.
Era apenas o silêncio de sua alma e a vontade de nunca, nunca parar – voltas musicadas de um carrossel sem curso, sem hastes, sem freios...

Desejava ligar e contar tudo. Palavra por palavra, proferir, ato obsceno e escandaloso que era a verdade que cercava, sem medo, sem preparativos, simples, direta.
- É você.
Não se sabe o fim da estória. Todos os prováveis e improváveis caminhos que os direcionariam dali, daquele inusitado encontro, das destemidas palavras, das palavras de agora, que mudariam tudo. Ou apenas direcionariam seus pés ao caminho que já era deles.
Não saberia.
E deslumbrada por não saber, sentava-se em frente ao computador, deixando que os dedos ditassem as palavras que lábio algum comportava... Ao menos não sem transformá-las em beijo, em desejo, em amor.
Não sabia exatamente como seria ser amada, exceto por si mesma: pois para amá-lo tanto, inevitável sorrir (como para um espelho), mesmo no mais chuvoso dos dias, a felicidade do amor.

7 de abr. de 2011

"- E você nem sabia que podia gostar assim"


Não me culpe
pelos beijos que já não irá receber.
Nem pelos dias, pelas estórias,
Não me culpe pela falta de ar
ou de vida em sua vida.

Não escolhi te deixar,
Segui em frente: a mesma trilha
Mesmos passos, mesma intenção
Mesma cor de olhos que tive quando te vi.

Cada brilho nosso se perdeu
Entre pedras e moinhos,
Entre ondas, furacões,
Ficamos sós em longas noites,
Por curtos dias, pelo pouco espaço,
Na imensidão.

Não, me culpe.

Não fui eu, mas o amor -
que me levou.

25 de nov. de 2010

Esta Noite.


Esta noite, eu gostaria de ser como um sopro suave, entrando em seu quarto e te afagando os cabelos. Gostaria de ser apenas essa brisa leve, que te toca o rosto e desperta um sorriso, singelo, doce. Um carinho verdadeiro. Um colo.

Gostaria de ser tudo e qualquer coisa que te fizesse bem, como um pedido de desculpas, ou o reconhecimento de algo que fiz de errado, ou contra você no passado, mesmo quando não era exatamente aquilo que eu gostaria de ter feito.

Gostaria de rebobinar nossa fita, retomar nosso encontro, ser mais uma vez aquela para quem você contaria seu maior medo, seu pior defeito, sem hesitar – porque seria, sempre, perfeitamente entendida. E eu também.

Gostaria de te ligar agora mesmo e explicar como cheguei até aqui. Como nesse mundo de invejas, de raiva e competição, eu lembrei a quanto tempo que te amo, apenas pelo que você é, pela nossa história, por cada lembrança, cada instante cúmplice que conseguimos dividir, como se o mundo inteiro fosse só nosso, e ninguém ou nada pudesse nos destruir.

Ainda adoro cada uma das suas qualidades. E como dói sentir que pode estar sofrendo. E eu nem saber. E como me dói não ser mais a pessoa que eu era pra você. Dói tanto que enraiveço, e me transformo nessa menina boba, que não sabe o que faz e tenta descontar, jogando esse ping-pong frenético. Nós sempre fomos as melhores. A melhor das duplas, a melhor parceria.

Acabo de rever essas cenas de nossas vidas. E foram tão reais, que parece que acordei de um sonho, sem me conformar com esse pesado do agora, poxa, ta tudo errado... queria muito que pudesse ver tudo isso comigo agora, reassistir o mesmo filme e chorar como eu choro, não se se de alívio ou de saudade.

Esta noite, eu rezo pra você. Pro meu Deus, para o seu, para todos os deuses que existam e possam nos proteger. Rezo pela sua proteção, pelo seu sucesso, pela sua felicidade e pela nossa paz. Rezo para que todos os anjinhos digam amém. E rezo com todo meu amor.

"What if?"



"Carta para julieta..."


Até então, pensava que paixão era só um saboroso obstáculo.


A paixão estava lá, quando jantaram juntos, refletida no tinto do vinho, enquanto usava o vestido novo e perfumou-se pra ele. A paixão estava lá quando olharam as estrelas e leram poesias, quando as mãos “acidentalmente” tocaram-lhe os joelhos, quando o tempo parou porque aquele sorriso era maior que o tempo. A paixão estava lá quando seus olhos brilhavam e também quando escrevia em sobressaltos, incessante - era paixão, desabrochando, enlouquecendo cada um de seus mais sãos pensamentos.


Foi a paixão que a conduziu, embriagada, até seus lábios naquela noite. Foi a paixão que a fez imaginar, cada sabor, cada fragrância, cada sensação... a mesma paixão que robou suas palavras, silenciou toda escuridão da noite, ativou seus sonhos, desertou seus medos.


Sim. Paixão dói, cega, deslumbra... Paixão ilude e aumenta a queda, no final. Não é paixão que cuida do supermercado, que paga as contas no final do mês. Não é paixão que encontra seus pais quando você está doente, que prepara chá de limão com mel e espera, serena, a febre baixar - mesmo cansada, mesmo cheia de problemas próprios pra cuidar.


Não é a paixão que alenta a dor nos pés daquela noite, nem paixão que liga pra te lembrar da reunião mais tarde. Não é paixão que senta do seu lado pra estudar um livro mais chato, que te tranqüiliza na véspera da prova. Não é paixão que ri de você, sentada há dois dias na frente do computador, cabelo amarrado num lápis, pra terminar aquele artigo – e te acha ainda mais linda que no primeiro dia.


Não é a paixão que vai à farmácia, ou que prega o quadro na parede. Não é a paixão que agüenta TPMs, mau humores, torcicolos, perdas... não é paixão que segura a fome e janta mais tarde com você. Não é paixão que entende a bagunça dos seus livros, das estantes, da geladeira - não é paixão que enche as garrafas de água, nem que entende quando as encontra vazias.


Não é a paixão que vence o sono quando o outro quer desabafar seus medos – porque, sim, eles voltam, porque, sim, eles existem, e às vezes crescem, e às vezes, ao menos algumas vezes, pedem colo e carinho.


Até então, pensava que paixão era só um saboroso obstáculo.


Foi quando recebeu sua carta. Aquela mesma, carta de Julieta, que vinha para aconselhá-la e abrir-lhe os olhos. E a carta disse:



“Sim, é verdade. Paixão são estrelas que brilham na noite, mas nem sempre aparecem no céu. Sim, é verdade. Paixão é neblina na realidade, não pensa em problemas, não tem preocupações... Mas a resposta, querida, é que sem paixão, sem a doçura e leveza da paixão, sem a nossa capacidade de nos apaixonarmos e “reapaixonarmos” no correr dos anos, não há amor que resista tanto. Você pode amar, agüentar o trânsito, a louca jornada, o trabalho extra e o choro dos filhos. Você pode amar, arrumar a casa, dar banho no cachorro, brigar novamente com a colega do trabalho. Você pode amar e estar bem acompanhada. Mas é a paixão, aquela, quase imperceptível... A paixão escondida no canto dos olhos, a paixão de um beijo mais longo antes de dormir... É esta que te tratará felicidade. E é a paixão que fará cada gesto de amor ser, exatamente, de amor. "


- Então, quando chegar a hora, não tema a paixão. Não tema sua chegada, não tema suas despedidas. A paixão é de idas e de vindas.


Os dias de paixão, suas estórias, suas memórias e sua presença, é que nutrirão o mais precioso amor.

8 de nov. de 2010

Norteio-me pelo que desejar.

Norteio-me pelo que fazes*.

Então não tente me convencer
- “vamos começar do zero”,
Ou que renovaremos nossa relação com a virada do ano.

Não disponibilize tantas interpretações
para tão poucas palavras,
tantas lacunas trazidas pela extensão silêncio
de seus lábios, mudos.
Não são surdos, os meus olhos.

Norteio-me pelo que fazes,
E apenas seus atos transformam, de fato,
Cada tato que já não quero mais enxergar
Ou sentir, ou transpor.

Sou só pó, quando é silêncio,
Só dor, quando demora,
Sozinha quando não me encantam mais
Seus cantos.

Norteio-me pelo que fazes,
E nos vãos de cada ato em vão,
Traço triste a dança das desculpas e arrependimentos
Que não se fazem, apenas soam
Zumbidos sem tons ao meu ouvido.

Vivo toda canção que não me fala
Entendo toda palavra que evita
Não perco seu rastro pelas linhas tênues da minha pequena-grande vida
E não apago pegadas traçadas em meu corpo.

Seja o que quiser.
Faça o que quiser.
Enquanto isso, norteio-me como desejar,
mesmo que não seja mais o seu desejo.



* Baseado no texto entraído de: http://www.balzaquianos.com/cronicas.asp?registroc=222
**Foto extraída do site: http://gemarlutar4ba.blogspot.com/2010/07/bussola-bussola-e-orientacao-uma-agulha.html

27 de set. de 2010

"Sol de Primavera, abre as janelas do meu peito..."


Outubro que te espero,
Nem sei se logo quero,
Ou prefiro o lero, lero, lero, do barulhinho que vem
Zunindo, baixinho, no meu travesseiro
Antes de outubro chegar.

Falta pouco, pouco, tão pouquinho...
E ainda não sinto a casa arrumada,
Não sinto idéias no lugar,
Não sinto o barco no oceano,
Não sinto se rio onde devo parar,
Ou se choro, só, por me apegar.

Ah...!
Não sinto, acima de tudo,
O tanto quanto eu desejava estar
Só um pouquinho mais pra frente,
Antes de outubro chegar.


- E nesses dias, penso, cá, com meus botões, em cada degrau dessa escada que ainda falta pra subir. Penso em cada dor da mesma pancada, penso em mim, parada, mesma estrada, penso em que rumo todos os rumos vão, ou não, fadada. E é assim, pequenina, que sinto a chegada de outubro, e eu sem casaco de lã, sem sapatos de cristal, sem a voz mansa ou mente quieta, quieta assim, sou, sem estar. É primavera, dizem nos campos, não te preocupa, podes chorar. Cada lágrima vai como orvalho e o sol vem pra te enxugar. Mas pra ninguém é tão outubro quanto o outubro acertou ser, e vem sempre como aquele primeiro beijo, que se sabe, mas nunca se sabe, esperado, anunciado, beijado. E acordo estranha e confesso ou não peço, mas é em outubro, sem antes, sem depois, outubro certo, e eu, incerta, temo te beijar o beijo errado.

Foto: webrecados.com

22 de set. de 2010

Psicologia estudantil - Parte I


Escolher uma carreira foi uma árdua tarefa. Apesar de uma área pré-definida, não tinha idéia se seria melhor tentar pedagogia, jornalismo, publicidade, psicologia, direito ou, quem sabe, teatro? Não faltaram lhe conselhos e conselheiros. Entre os espetaculares e os absolutamente furados, era dificílimo diferenciar.

Como qualquer grave decisão que se possa tomar aos dezoito, mergulhou em águas turvas (eram poucos os peixes, alguns os corais, raras as baleias e inúmeros os tubarões...). Levou seu tempo até perceber a presença de simpáticos golfinhos e aprender a usar das próprias nadadeiras.

As dúvidas, porém, que imaginou partirem após a posse de um cone vazio com eco de diploma, só pioravam.


Foto: cutemama.buzznet.com

Psicologia Estudantil e o rumo de seu coração (Parte II)



Dia desses, decidiu mudar de rumo. Iria fazer psicologia. Reiniciar os estudos. Nova faculdade, mais madura. Novas aulas. Novas mensalidades. Novo passo – o “zero” passo, novamente.

Antes do ingresso programado, foi convidada pra dar umas aulas. Assim, acidentalmente.

E, talvez como acontece como toda paixão, acidentalmente, ela se apaixonou.

A paixão queima, tira o sono, dá arrepio da espinha. A paixão meio que enlouquece e ela perdia a fome quase tudo mais que não fosse o objeto de seu apaixonamento.

Dia desses, na saída da aula, uma aluna pediu uns conselhos. Problemas com o marido, que era contra seus estudos.

Dia desses, um aluno confessou-lhe as dificuldades de casa, a doença da esposa, as complicações com o filho, adolescente.

Dia desses, mais e mais pessoas, interessantes, complexas, vivas, preenchiam seus espaços, com olhos atenciosos e ouvidos abertos, a espera do que ela sequer sabia se poderia oferecer.

Mas oferecia. Ela estava apaixonada.

Seriam poucos a entender. Seu rumo eram vários rumos, sua carreira, várias carreiras e suas paixões... estas eram, agora, o mais puro, incondicional AMOR.

21 de set. de 2010

Queijo com goiabada.



Pensava que a sua vida de “casada” seria diferente.

Big step isso de morar junto.

Em sua cabecinha programável, tinha elaborado diversas listas, para cada aspecto da vida que seria a vida que iria ter. Estava tudo no máximo controle.

Teria que tomar banho todas as noites antes de dormir. E tirar o rímel, mesmo que chegasse exausta (ninguém merece olhos borrados logo de manhã). Não poderia mais faltar pão em casa. Alias, teria que programar o jantar (quem vai cozinhar? Toda noite? Ai...)

Nada de blusa velha pra dormir. Deveria providenciar novas camisolinhas, diferenciadas, para os diferentes períodos das suas luas.

A casa deveria estar sempre limpa. Trocar toalhas e lençóis com mais freqüência. Cheirinho de lavanda na cama. Nada de bagunça. Gaveta certa pra cada coisa, roupas guardadas no armário. Tudo dobrado. Afinal, seria um dobro.

E foi tudo tão assim, inesperadamente, rápido! Que bastou uma semana.

Sonhos de “alice” pelo ralo, junto com cada plano de um lar e harmonia perfeita.

Não tinha tempo de ser a “esposa” do conto de fadas. Não tinha forças, nem sabe dizer se tinha a instrução necessária pra isso.

Preocupou-se. Não tinha nada pra jantar. Ela era um desastre completo. Melhor o divórcio antes até de casarem-se, sem dúvidas.

Ele chegou. Ela acomodou-se, olhar distante, no canto do sofá.

Ele abriu a geladeira, o armário... pegou um pacote de cream crakers e manteiga. Sentou do seu lado e pôs longo beijo em seus lábios. Amanteigados.

E nas manhãs que acordava com olhos negros e borrados, ele também a beijava, sem parecer notar, ou como se aquele fosse o tom mais lindo do domingo.

Ela sorria. Não sabia nada mesmo dessa vida dobrada. Mas descobriu, feliz, que não eram precisas as dobras dos lençóis.


Foto: http://www.pampasonline.com.br/brasil.htm

13 de abr. de 2010

Walking by.


Trocou seu chão por cascas de ovos.
Trocou seu chão por espelhos, de aumento, de sombras, de sobras.
Em um chão traçado em lápis, ela corria riscos, não alçava vôo, nem encontrava respostas.
Foi em um chão sem chão que seus pés caíram,
em um chão sem chão que suas lágrimas escoaram
e ninguém amparava, ninguém ligava,
era um chão sem dono e não um ninho.

Daquele chão não se voava, daquele chão mal rastejava de tão leve que pisava e se caísse, (ah, se caísse!) era um chão estraçalhado aos seus pés o que encontraria. Ela que sabia voar, ela que era filha do vento, ela que amava passos largos e pesados quando em solo firme, trocou seu chão por cascas de ovos, e todos os seus passos eram não-passos, não-possos e todas as suas vozes era não-vozes, não-vezes, e todos os espelhos apontavam única e exclusivamente para ela - não-ela.

25 de nov. de 2009

Por uma vida menos bagunçada...


Desejava queimar todo e qualquer conto de fadas e príncipes encantados. Príncipes não existem. Não existem. ponto.

Olhava outra vez a cama bagunçada. As roupas espalhadas, toalha molhada, sapatos... A cadeira do quarto cheia de livros. Pra que mesmo perdeu o sábado prendendo estantes? Não importa.

As coisas dele se multiplicavam nos espaços vazios. Pia do banheiro sempre molhada, escova nunca na gaveta. Tesourinha - melhor não comentar. Havia papéis por todo lado, copo sujo sob a mesa de cabeceira, farelos de biscoito pelo edredom. Ele era amplamente destituído da capacidade de arrumar a cama, lavar os pratos, ou apenas colocar qualquer coisa no devido lugar. Será que estaria um pouco enraivecida?

E quem foi mesmo que disse que ela devia ansiar por aquilo? Pra que tanta pressa? Essa ansiada “junção” requer profunda maturidade, e agora era sabia o porquê. Nada de amor cor-de-rosa. Amar dá trabalho! Será que essas mocinhas, todas elas desesperadas por maridos, sabem disso?

Ah... Alguém devia ter ensinado na escola – muito mais importante que as técnicas de conquista de que fala a música, são as técnicas de tolerância à total falta de iniciativa masculina. Ah, Homens. Tão fortes certas horas, tão sonsos em outras.

E dizem que a culpas é das queridas mães, que resolvem criar principezinhos, incapazes de amarrar seus próprios cadarços... Será?

Arriscaria a campanha: Filhos de hoje, maridos de amanhã! Crie o "partido" que você gostaria de oferecer a sua filhA. Com “A” maiúsculo. Ou se inspirem no genro dos seus sonhos! Vai que funciona...

*Resolveu fazer uma pesquisa de mercado (já que pouco gosta de se intrometer em relacionamentos alheios...). Interrogou uma amiga, às beiras da festa de casamento:
- Namorei sete anos e decidi terminar. Ele era difícil demais!Cansei das briguinhas, do stress, da cobrança, da bagunça! Agora, tenho um ano com Paulinho. Ele disse que queria casar, eu topei.
- Hum... Então ele é mais “fácil” que o primeiro! Vocês devem combinar melhor...
- Que nada, amiga! Capaz de ser até mais difícil que o anterior! São novas cobranças, novas bagunças... Antes eu pelo menos eu conhecia bem todas!
- E você topou?
- pois é. E deixa eu falar devagar, pra não ser mal interpretada. Veja bem: não digo que é pra casar com qualquer um, sair correndo pra porta da igreja, não me entenda errado... Mas amiga, perceba, primeiro você tem que definir o que quer: se quer mesmo casar, se quer uma família.
- E depois?
- Depois, meu bem, a gente amadurece... ! E quando digo “amadurece”, quero dizer: entendemos que homens são homens, criamos nossos anticorpos, desenvolvemos nossa tolerância e fazemos o melhor possível pra mandar despercebidamente. Vez ou outra, funciona.se eu tivesse a maturidade de hoje antes, provavelmente teria casado com meu antigo namorado...

E lá se vão mais alguns quilinhos de sonhos e idealizações... homens certos, homens errados, maturidades... muito difícil aquilo tudo de uma vez!

Mentalmente, re-escutava o diálogo pré-nupcial, enquanto ele ajeitava a gravata.

Um beijo de café, e porta batida.

Não, ela não teria o resto da manhã pra arrumar aquela bagunça. Da última vez que checou, também tinha um emprego, e nos dois turnos - ou seja: restavam-lhe os segundos contados pra agarrar um iogurte e sair.

Olhou calmamente ao redor.

Seu quarto já não era o mesmo. Via o nome dele escrito em toda parte. E nos lençóis, o cheiro inconfundível, masculino, de seu amado. Lembrou do beijo de bom-dia. E da alegria da noite passada. Do abraço apertado antes de adormecer.

Bendita bagunça, pensou. Arrumaria tudo quando voltasse. E torceria, enfim, para que tudo estivesse mais uma vez bagunçado, na manhã seguinte.

Imagem: http://www.recomendocomcerveja.com/2008/03/03/bagunca-evolutiva/