25 de nov. de 2010

"What if?"



"Carta para julieta..."


Até então, pensava que paixão era só um saboroso obstáculo.


A paixão estava lá, quando jantaram juntos, refletida no tinto do vinho, enquanto usava o vestido novo e perfumou-se pra ele. A paixão estava lá quando olharam as estrelas e leram poesias, quando as mãos “acidentalmente” tocaram-lhe os joelhos, quando o tempo parou porque aquele sorriso era maior que o tempo. A paixão estava lá quando seus olhos brilhavam e também quando escrevia em sobressaltos, incessante - era paixão, desabrochando, enlouquecendo cada um de seus mais sãos pensamentos.


Foi a paixão que a conduziu, embriagada, até seus lábios naquela noite. Foi a paixão que a fez imaginar, cada sabor, cada fragrância, cada sensação... a mesma paixão que robou suas palavras, silenciou toda escuridão da noite, ativou seus sonhos, desertou seus medos.


Sim. Paixão dói, cega, deslumbra... Paixão ilude e aumenta a queda, no final. Não é paixão que cuida do supermercado, que paga as contas no final do mês. Não é paixão que encontra seus pais quando você está doente, que prepara chá de limão com mel e espera, serena, a febre baixar - mesmo cansada, mesmo cheia de problemas próprios pra cuidar.


Não é a paixão que alenta a dor nos pés daquela noite, nem paixão que liga pra te lembrar da reunião mais tarde. Não é paixão que senta do seu lado pra estudar um livro mais chato, que te tranqüiliza na véspera da prova. Não é paixão que ri de você, sentada há dois dias na frente do computador, cabelo amarrado num lápis, pra terminar aquele artigo – e te acha ainda mais linda que no primeiro dia.


Não é a paixão que vai à farmácia, ou que prega o quadro na parede. Não é a paixão que agüenta TPMs, mau humores, torcicolos, perdas... não é paixão que segura a fome e janta mais tarde com você. Não é paixão que entende a bagunça dos seus livros, das estantes, da geladeira - não é paixão que enche as garrafas de água, nem que entende quando as encontra vazias.


Não é a paixão que vence o sono quando o outro quer desabafar seus medos – porque, sim, eles voltam, porque, sim, eles existem, e às vezes crescem, e às vezes, ao menos algumas vezes, pedem colo e carinho.


Até então, pensava que paixão era só um saboroso obstáculo.


Foi quando recebeu sua carta. Aquela mesma, carta de Julieta, que vinha para aconselhá-la e abrir-lhe os olhos. E a carta disse:



“Sim, é verdade. Paixão são estrelas que brilham na noite, mas nem sempre aparecem no céu. Sim, é verdade. Paixão é neblina na realidade, não pensa em problemas, não tem preocupações... Mas a resposta, querida, é que sem paixão, sem a doçura e leveza da paixão, sem a nossa capacidade de nos apaixonarmos e “reapaixonarmos” no correr dos anos, não há amor que resista tanto. Você pode amar, agüentar o trânsito, a louca jornada, o trabalho extra e o choro dos filhos. Você pode amar, arrumar a casa, dar banho no cachorro, brigar novamente com a colega do trabalho. Você pode amar e estar bem acompanhada. Mas é a paixão, aquela, quase imperceptível... A paixão escondida no canto dos olhos, a paixão de um beijo mais longo antes de dormir... É esta que te tratará felicidade. E é a paixão que fará cada gesto de amor ser, exatamente, de amor. "


- Então, quando chegar a hora, não tema a paixão. Não tema sua chegada, não tema suas despedidas. A paixão é de idas e de vindas.


Os dias de paixão, suas estórias, suas memórias e sua presença, é que nutrirão o mais precioso amor.

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