"(...) eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, (...)"
10 de jan. de 2009
Caio Fernando Abreu - III
"(...) eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, (...)"
Caio Fernando Abreu - IV
"E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar".
Caio Fernando Abreu - V
"Mas sempre me pergunto por que, raios, a gente tem que partir. Voltar, depois, quase impossível" (C.F.)
Sempre dói, mas sempre passa.
E ela sabia. Sabia e lembrava todas as vezes que doeu, sem que isso significasse absolutamente nada agora. Da última vez foi pior. Foi? Não sabia. De certa forma, lembrava o estrago (noites mal dormidas, seguidas de dias cansados, horas lentas demais, ora longas demais, nada de fome, vontade de comer o mundo. Lágrimas. Muitas lágrimas...), mas não conseguia comparar nada com o aperto que sentia agora. Hoje, seria a pior dor de sempre. Viu como passa? Não lembra a dor do estrago...
Pensar nisso, porém, (e repita-se), não estava ajudando nada. Deveria, tudo bem, - mas não estava.
E daí se estava perdida, e daí se queria tentar uma nova profissão a cada segundo, e daí se nos minutos seguintes continuava na mesma profissão, imaginando como seria se tivesse mudado no segundo anterior? As respostas não estavam nele, isso decerto. Aliás, estas respostas aparentemente não estavam em lugar algum. Exatamente como ela, vagando nesse vácuo intertemporal que inventou para passar a chuva. Você está mesmo aqui, querida? Porque me parece estar longe... em algum outro lugar. Mais uma vez: exatamente.
Perguntou-se, por fim. Se as respostas não estão em lugar algum, e eu estou em lugar algum, elas deveria estar bem por aqui........................ hum?
Nada como mais um dia sem hipocrisias.
3 de jul. de 2008
"Abre as cortinas pra mim..."
Espera.
Escuta amor, nosso silêncio.
É o silêncio que precede a manhã,
Silêncio que vem pouco antes do anoitecer.
Escuta a ausência de som que se fez
No entre tempos dos nossos minutos
Escuta o vazio e vácuo
Escuta o nada,
e admira ao meu lado
(não precisamos do medo, ou das idéias).
E não se assuste
Se a lua vier mais perto,
Como lágrimas nos meus olhos.
Eles choram a beleza
Do silêncio que se fez
No nosso amor.
O que mais ninguém poderia oferecer...
Eis a cena*:Ele bate na porta. Segura um copo de uísque e fala levemente embaralhado. Ela o vê do outro lado. Passa a corrente. Abre uma fresta da porta.
- O que você quer?
- Me deixa entrar.
- Não. São três da manhã.
- Abre a porta, para com isso. Sou eu, o homem com quem você quase casou.
Ele entra, a abraça forte, a segura pela cintura, faz piadinha infame sobre seu decote.
Ela está com um hobby vermelho, dá pra ver a renda branca de sua lingerie quando ela tenta se afastar.
- Uísque?
Ele aponta o bar e entrega o copo praticamente vazio.
- É isso. Um drink, e você vai embora.
Ele sorri por dentro. Vai até o balcão e serve dois copos, pouco gelo.
Vão até a varanda, ela anda na frente. Quer um pouco de ar. Ele se aproxima em seguida e respira forte em seu pescoço. Ela perde o ar, de todo jeito.
Sentem o cheiro familiar um do outro, ela o deseja, ele percebe.
Ela o evita. Fala sobre assuntos cotidianos, ele se mostra interessado em tudo que a diz respeito. Ela diz que tem um novo emprego, que está freqüentando um grupo de estudos, religião, espiritualidade. Ele faz perguntas, diz que quer saber mais a respeito, que quer conhecer tudo que a faz bem.
- Se funciona pra você, pode funcionar pra mim também, porque não?
Nesse momento, por alguns segundos, ela o olha com a mesma paixão de antes. Foram segundos, mas ele notou. Era sua deixa. Ela era sua outra vez. Ele a aperta o corpo contra o dela. Desta vez não tem espaço pra esquivar. Deslizou as mãos por dentro do hobby de seda, vermelho.
- Eu sei que você sente a minha falta. Eu sei que imagina que sou eu, quando está sozinha, no meio da noite. Eu sei que sonha em estar exatamente aqui.
Sim, era tudo verdade. Sim, ela o deseja mais do que tudo naquele momento.
Fazem amor. Ela se entrega completamente, respira cada pedaço da pele dele, se deixa tocar, e sente todo o prazer quanto seria possível caber numa mulher. Não era apenas um homem em sua cama. Era ele, e todas as suas peculiaridades, seu toque, trejeitos, olhares, sabores. Era ele mais uma vez, quando ela achava que não seriam nunca.
- Podíamos passar o resto do fim de semana aqui. Eu e você nesse quarto, fazendo amor. Vamos pedir algo delivery e não sair do quarto pelas próximas 48h!
Ele ri alto com a idéia.
- Preciso ir.
- Amanhã a noite é o encontro do grupo. Você pode vir comigo e saber mais, já que está interessado.
Agora, uma gargalhada.
- Eu? Fale sério. Eu não ligo a mínima pra droga da sua religião.
- Mas... você disse...
- Eu disse o que sempre digo: qualquer coisa para levar uma mulher pra cama.
Lágrimas de raiva escorrem em seu rosto. Ela arremessa o travesseiro.
- Cretino... Nojento! Por que eu? Me diz, por que porra logo eu??? Tantas vagabundas ai que você poderia comer, tantas mil outras mulheres gostosinhas loucas pra dar pra você! Por que não procurar uma dessas... por que você veio aqui, justamente aqui?!
E eis a resposta, em um tom sarcástico e palavras lentamente pronunciadas:
- Ah, benzinho... Mas eu não queria apenas sexo! Sim, poderia ter sexo com qualquer outra... mas hoje, precisava de algo além do sexo. Eu queria me sentir poderoso. Queria me sentir o homem mais importante do mundo. Eu queria, meu amor, me sentir grandioso, especial, único. E isso, nenhuma outra mulher no mundo poderia me dar.
Ela bate em seu rosto. Ele bate a porta.
*livre adaptação da cena de um desses seriados americanos.

Pensou que ia amá-lo sempre
E sempre estariam juntos
Sempre acima de todas as coisas
Pensou que insistiria, sempre.
Pensou que um dia
Ia vir de branco
E iam ser dele
Os olhos sorrindo
e esperando mais a frente.
Pensou que aquele caminho
seria apenas àqueles braços.
Pensou que diria a ele
Sim, com ou sem saúde
Sim, com ou sem dinheiro
Sim, com ou sem utopias
(Mesmo que o vestido fosse algodão, e que o caminho fosse entre a sala e o quarto, mesmo sem retrato, sem convidados, sem papel, sem estrelas brilhando no céu, mesmo sem trilha sonora, mesmo sem ver certa a hora... ainda assim, seria seu o rosto ao lado, todos os dias, quando acordasse.)
"Can you see the beauty inside of me?"

O viu do outro lado da rua. De dentro do carro, sorria com os braços cruzados e apoiados sobre a janela, queixo encostado entre as mãos.
Congelou o mundo um segundo. Olhou novamente para ele. O sorriso, os olhos brilhando. Não saberia vê-lo e não amá-lo. Como se encontrariam dali pra frente?
Provava aos poucos o sabor doce das palavras que ele ainda não tinha proferido. Os gestos futuros, o som da risada. Enfeitiçava-a o êxtase do reencontro.
Talvez não devesse atravessar a rua. Voltaria, sem palavras. Ele interromperia o sorriso, mas entenderia, decerto.
Talvez não devesse atravessar a rua. Abaixaria a cabeça e subiria novamente as escadas, resguardando-se de tudo que dói, de tudo que ama, de tudo que é sobra de uma amor que não passa.
Talvez não devesse atravessar a rua. Deixá-lo para trás de uma vez, esquecer seu rosto e seu sorriso e não passar as próximas noites, não passar todas as noites a partir daquela noite esperando: por aquele sorriso, por aqueles olhos, por aqueles braços cruzados e apoiados no carro, do outro lado da rua.
"They’re advertising in the skies, for people like us..."
Ela o amou à primeira vista. Seus olhos se encontraram e foi sugada. Encarava meio encantada, paralisava no som macio da voz ou no brilho estranho do olhar ou no que mais que houvesse demais que envolvesse aquele sorriso. O barulho perfeito de sua pausa. O contorno das mãos e os gestos híbridos, oscilantes entre vagos e precisos. Sua presença a fazia desejar ser mais.
Com o tempo, amou suas idéias. Concentrava-se na velocidade de seus pensamentos, zig-zags soltos e coordenados a faziam querer não ser: morrer e nascer idéia –criada, pensada, inventada por ele. Rica, veloz, ensurdecedora.
Foi quando amou seu coração. Amou cada uma de suas extensões: as trezentas mil preocupações constantes, a vontade de amar mais e mais o mundo, o valor imenso dos gestos sinceros.
Antes de dormir, escolhia ouvi-lo falar. Falava por uma abraço apertado e forte, enforcante. Falava com mordidas, quase sempre na orelha esquerda. Falava quando deslizava os dedos sem perceber pelos seus cabelos. Suas falas eram as mais lindas não-palavras.
Amou, não menos, seu corpo. Amou sua boca e o beijo intenso, amou seu jeito de respira-la como se ela fosse o pouco oxigênio que restasse no planeta. A respiração em seu pescoço. Beijo na nuca, mãos, abraço. As vezes o abraço era tão forte, que não havia vácuo. Eram eles e mais nada.
Amou tanto e de tal forma, que se sentia dissolvendo, extravasando, desaparecendo no amor.
Ela sempre pensou que o amor fosse dela. Era ela, que pertencia e desfalecia no amor.
"Every time you give yourself away, it comes back to haunt you..."

"Agora era fatal que o faz de conta terminasse assim..."
Comprei um reinado colorido e enfeitei com bolas de sabão.
Comprei um castelo, coroa, vestido. Comprei uma praia deserta e trilha sonora, comprei chocolates e tudo mais que te trouxesse um sorriso. Uma caixa com infinitos beijos, um travesseiro que velava os sonhos. Comprei as mais loucas e lindas idéias e trabalhei-as todas, com as pontas dos dedos.
Ai, sempre fui muito rica quando era o amor a moeda corrente!
Saudade,
Tonta!
Vê se conta
Outro verso de dormir
Porque a velha música,
Saudade,
Já não toca aqui.
15 de dez. de 2007
"Amo tanto e de tanto amar..."

É que tem essas horas que ele fala com o coração, como se nada mais existisse. Sem orgulho, sem raiva, sem rancor. E quando ele me abraça, e fala baixinho que sente muito, e quando eu sinto o coração dele batendo pertinho, eu sei que é verdade e sei que meu perdão, por mais difícil que possa parecer pra mim, é válido e será recompensado.
Discutimos. Eu me excedi, acho que ele se excedeu, fiquei triste, senti raiva, quis chorar (quis? Rs.), bater, sair correndo pra bem longe...
Mas engoli o orgulho e tudo mais que seria contrário ao amor e pedi, por favor, desculpas. (Sim, ambos erramos, ambos soobemos disso, afinal).
Há muito tempo eu não ouvia nada tão lindo. Tão real. Tão exatamente o que eu teria dito, o que eu penso disso tudo.
Não é fácil mudar. Não é fácil encarar os próprios defeitos – sentimos vergonha, raiva, medo de perder ou magoar quem amamos e o tentamos esconder de nós mesmos que temos, sim, defeitos, imperfeições, incoerências...
Mas se é este o caminho que escolhemos, de crescer, evoluir, sermos mais pacientes, altruístas, honestos com nós mesmos... Enfim, sermos pessoas melhores neste mudinho complicado, melhor que tenhamos do nosso lado o amor.
E melhor ainda que esse amor seja grande o suficiente para criticar e encerrar discussões com beijos e um abraço apertado, que seja mais forte que os nossos defeitos, a nossa intolerância, o medo e a insegurança que carregamos, ainda que sem querer.
Que seja um amor que saiba dizer: – “cuide de mim, que eu cuido de você”.
Tive uma semana de frases de efeito. Sinto que elas vão ficar comigo por um longo tempo. Eu sempre gostei de palavras. Estou aprendendo a me apegar as positivas, e não me deixar enganar por más interpretações.
Acima de tudo, é amor demais que carrego. E nada ensina mais que o amor.
23 de out. de 2007
"Vê como a vida está mais bela, só mudou sua forma de olhar..."

Já tinha cansado de procurar tanto, voltas e voltas em vão pelos mesmos caminhos, entre tantas outras pessoas - enquanto algumas pareciam saber que ela procurava, outras sequer a viam – eram, enfim, pessoas demais, obstáculo adverso quando dentre todas o que ela queria ver era apenas uma.
Olhou primeiro com medo. Não sabia se aqueles outros olhos também a procuravam, se estariam de passagem, se desviariam rápido ou seriam rispidamente gelados. Não sabia quase nada, pra ser exata, exceto que os olhos que procurava eram aqueles, mas nenhum.
Foi quando “aqueles” olhos sorriram de volta. Eles sorriram e os lábios sorriram e ela sentiu um aperto no peito – vontade de correr pra bem perto dele e respirar aquele sorriso de perto! Em um segundo, era tudo tão óbvio, tudo era exatamente, muito além dos certos e errados, das críticas, dos pensamentos, muito além de todas juras e promessas que repetiram “over and over and over”, de todas as brigas, da raiva, da dor.
Acompanhou aqueles olhos sem piscar - lembrou do filme que a noiva saia correndo do altar por causa do flash de uma foto que a fez fechar os olhos e desviá-los do futuro noivo e teve, outra vez, medo de perdê-lo de vista.
Então veio o abraço. Desculpem-nos todos os outros, mas só os apaixonados sabem do abraço que vem depois de uma separação. Do nó na garganta e do conflito entre as lágrimas e o riso, do bater descontrolado do coração e da vontade de que fosse possível ficar ali pra sempre (sem palavras, sem idéias, sem julgamentos e sem medos).
Ambos tinham errado seus caminhos outras vezes, mas (e isso independente do que aconteça) aquele abraço jamais seria um erro.
5 de set. de 2007
Eu e os telefones. Uma novela pessoal.

Preciso urgentemente parar com este péssimo hábito de atribuir diferentes “toques” telefônicos. É um problema sempre, eu incorro repetidamente no mesmo erro e parece não ter solução.
Seguinte: contatos diários e constantes via telefônica. De repente, vontade de identificar previamente o emissor, o que no mundo moderno dos celulares com personalidade própria e que fazem praticamente tudo, é absolutamente possível – basta clicar uma e outra teclinha, e pluft! Toque especial, musiquinha exclusiva, tom personalizado.
Ai, tudo começa... “tchup tchuru, tchup tchuru, tchuru, tchurururu”, ou seria “tam taram, taram, taram, tararam, tam, taram, taram, ram ,ram...” Enfim. Não importa. (alguém tire essa música da minha cabeça!!!).
O problema é que termina. Termina e ai o telefone não toca, e ai você já não houve mais o barulhinho diário e viciante que tocava todo dia pra você. Você já no houve mais e toda vez o “trim” tradicional faz o “trim” tradicional dói uma pontinha no coração.
Brilhante. Pensei ter achado a solução brilhante: troquei do “oficial”, bom e velho “trim” nosso de cada dia para a antiga musiquinha que tinha parado de tocar. Agora TODAS as vezes que alguém ligasse eu ouviria a musiquinha de que tinha saudade e todos os problemas do mundo iriam acabar! Vejam só, nada mais de “trins” tristes! Só “tchups, tchups” engraçadinhos!!! E uma banana pra quem tinha dito que ‘toques” de celular de advogado tem que ser sério.
Ledo Engano.....
Agora, toda vez o telefone toca é um problema. Pra ser sucinta (a quem eu quero enganar? Eu nunca sou sucinta no meu próprio blog), digo que sinto um sutil embrulho no estômago (butterflies, you could say...), um arrepio interno e externo que se perfaz em um pequeno tremor, notável pelas pessoas mais perspicazes, as quais poderiam jurar que, como algumas velhas esquizofrênicas, me assusto com o ínfimo tocar de meu próprio celular.
Sim, como percebem, foi uma idéia infeliz. Ninguém quer tremer repetidas vezes ao dia. E o pior, preciso confessar: e se fosse o dono original do toque??? Aquele mesmo, que já não ligava, e se ligasse? Seria afinal o mesmo toque e eu sequer identificaria previamente, já teria relaxado do susto inicial e um segundo susto poderia ser fatal! Segundos sustos costumam ser piores, sempre piores, perguntem aos assustados.
Não, não. Foi necessário retornar ao velho e bom, tradicional “trim”. Nesta noite, me prometi nunca mais presentear “ligadores” com toques especiais. Melhor dizendo, naquela noite, prometi.
E aqui estou hoje... Imagine porque....
É isso. Sou um risco para mim mesma algumas vezes.
E o melhor? Ainda consigo ser honestamente feliz assim. E o meu sorriso continua brilhando quando meu celular fala línguas estranhas em toques especias.
1 de set. de 2007
Walk on by, and bye.

The house where you still live,
Walk on by,
The place where we would kiss,
And the room where,
I held you tight,
Tonight,
I must walk on by,
Yeah, walk on by,
The room where you still sleep,
Walk on by,
The company that you keep,
And the room where,
I held you tight,
Tonight,
I must walk on by,
Yeah, somehow,
The house where you still live,
Walk on by,
The place where we would kiss,
And the room where,
I held you tight,
Tonight,
I must walk on by,
And the room where,
I held you tight,
Tonight,
I must walk on by...
17 de ago. de 2007
Pra ser ninguém, alguém tem que querer. De verdade.

E dizer onde estou
Ninguém pra ir comigo onde eu vou
Ninguém pra abaixar o volume
Ninguém pra reclamar dos pratos sujos
Ninguém pra fingir que eu não amo
Toda noite no mesmo lugar
Eu abro os olhos
E deixo o dia entrar
Pra ninguém
Pra ninguém
Ninguém na casa pra poder acordar
Do meu lado
Ninguém pra contar novidades
Ninguém pra fechar as cortinas
Ninguém pra brigar de vez em quando”
E houve esse dia em que eu pensava ser ninguém.
Pensava não, acreditei de verdade verdadeira.
Acreditei e desejei de verdade verdadeira.
Verdade mesmo? Eu não esse niguém.
Se fui um dia, assim por acaso, não sou mais hoje.
E agora, ninguém pode até vir a ser um outro alguém, de vez em quando.
E o triste é acordar e constatar que não adianta fazer tudo pra ser alguém, ou ser ninguém, porque ainda há quem prefira que niguém seja só ninguém. Mesmo.
11 de jul. de 2007
A little bit Alice.

Ela saiu de casa e deixou a porta aberta. Não tinha a intenção de voltar. Portanto, não faria diferença. Não queria sentimentos. Não queria ouvir a porta fechando, ou sentir o vento frio em suas costas.
Ela preferia partir. Dentre todas as escolhas, dentre as opções, resolveu sair pela porta e não voltar mais.
Queriam a formula para esquecer um do outro. Gotas, comprimidos, um xarope colorido com groselha. Qualquer antídoto contra a saudade, contra o abismo imenso entre os quinze minutos logo antes de dormir e os cinco primeiros minutos ao acordar, qualquer coisa eficaz contra a garganta seca de quando abraçavam o travesseiro ou lembravam do perfume. Contra o vazio.
Remédio mesmo, só o tempo - pensou. E enquanto pensava, detestava o tempo. Tic-tac que a ninava todas as noites, tic-tac da noite que não passa, tic-tac do dia que não chega, tic-tac do não saber o que fazer com todas aquelas horas sem amor, sem as risadas soltas no meio do minutos, involuntárias, inexplicáveis, de paixão. Sem as suas risadas que eram dele. Sem a sua “ela” que era dele.
Trágico fim de um beijo sabor chiclete.
