
Ok. Ela ligou o ar condicionado. Não era bem “fã” do frio, mas pensou que isso poderia aproximá-los de alguma forma. Ou não. (...) E se fosse exatamente o oposto? E se ele não se aproximasse, e se o frio viesse e tudo ficasse ainda mais distante? O ar condicionado pode ter sido uma má idéia. Ariscava aumentar aquele vácuo que se formava entre os dois travesseiros da cama, e uma dor em seu peito a avisava que não deveria correr tantos riscos.
Deitou-se de costa e esperou. Viu-se rezando para que ele a tocasse, para que interrompesse aquele silêncio estúpido, para que apenas, pura, simplesmente, deixasse.
Desejou que deixassem pra lá. Que numa respiração um pouco mais longa, um pouco mais profunda, se desapegassem do que quer que estivesse prendendo-os em lados separados da cama, naquele e em todos os outros instantes.
Por favor. Bastava chegar um pouco mais perto. Basta não pensar mais nada. Por favor. Sua reza tornou-se esse pedido, repetitivo e ritmado, que dizia, “me abrace, por favor.”
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Ah, eram então mãos ásperas que os guiava naquele momento.
Seu jeito de funcionar não era nada prático e não, absolutamente, não ajudava. Pensou em mil formas diferentes de explicar.
Apegou-se a ele. Ela era de se apegar a coisas e pessoas, de quando e quando. Algumas vezes, se apegava a um trejeito ou mania específica, como um erguer de sobrancelhas, o jeito engraçado de se enroscar no travesseiro, as inúmeras vezes que repetia que a amava num mesmo dia. De outras, apegava-se a pessoa. Como se uma pessoa pudesse ser um cachecol, macio e suave, amarrado em torno do pescoço. Um piercing escondido. Um amuleto no bolso esquerdo.
Apego é algo diferente de amor. Ela amava e já havia amado e esquecido. Se apegara a ele, sua presença e seus carinhos, e não queria pôr nada disso a perder.
Estava, claro. Por isso, pensou mil formas diferentes de explicar.
Sabia como teria que ser. Não que quisesse assim, ah, queria tantas coisas, queria ser tantas coisas, queria espelhos maiores, queria saber o que queria sem precisar se esforçar tanto! Mas teria que ser assim. E assim não estavam sendo eles. Faltava... Assim:
- “blá, blá, blá, que raiva, blá, blá, blá, tudo errado, blá, blá, blá, já nem sei mais do que estou reclamando, que blá, mas tô irritada e blá, blá, blá, vai sobrar pra você”.
(“Blá, blá, blá” não é nada agradável. “Blá, blá, blá” é um saco.)
É quando, depois de um pequeno e tortuoso intervalo, chega a culpa. Os “blás” já estão todos bem soltos quando a culpa começa a corroer suas artérias e queimar no peito. Não, na cabeça. No peito. No estômago? Enfim, ela queima. Queima e se dissolve em lágrimas ainda mais ridículas do que o amontoado de “blás” anteriores.
“Porque eu sou assim? Porque disse isso? Alguém me amarre e me tranque num hospício, sou louca e problemática e provavelmente mereço segundos lentos de tormenta e solidão que durem para sempre”.
(OBS: Não riam. Se essa voz patética gritasse na sua cabeça, saberia do que estou falando. (e quando digo “não riam”, desculpe, mas não pense que falo com você, quem quer que seja, “leitor”. São outras múltiplas vozes, internas e ainda mais irritantes que a controladora e melodramática culpa)).
Pronto. Ai está o “timing”. No meio das lágrimas e da culpa, o “timing” dele diz algo parecido com: “sou um bloco de gelo, estou de saco cheio de sua baboseira de menina mimada, e agora, vê se dá um tempo”. Time.
Foi assim que nos perdermos. Entre “blá-blás” e blocos de gelo.
Foto: http://o-blog-verde.blogs.sapo.pt/tag/mar
Texto do acervo pessoal, não atual.