
Ninguém perguntou se estava preparada. Talvez seu primeiro nascimento também tenha sido assim. Talvez nunca se esteja preparado. Mesmo que se tente. Mesmo que se deseje. Fato é que estava ali, despreparada e corajosa, no afã de achar que tudo é possível, alcançável, realizável. Na ingenuidade de sua juventude. Obstáculos existem para serem vencidos, pensou. Mas não era tão simples assim. Havia o medo. Havia a dor. Havia montes e montes de poeira acumulada debaixo dos tapetes, e ela não viu quando tudo se tornou tempestade de areia... tentou controlar, lutar contra o que quer que queria levá-la, viu seu coração disparar e sua mente acelerar, desesperada. Não, nada adiantava. Não respondia a si mesma. Ou respondia a sua alma. Ainda não sabia distinguir. Enfim, rendeu-se. A dor dominava seu pequeno corpo e tudo que conseguia pensar era em nascer. Lenta foi sua morte, lento o caminho até a pequena porta, mas alegre o encontro com o luz. “Por todas as minhas relações”. O medo se foi, mas ainda sentia a dor e a vontade de livrar-se de toda a bagagem, de tudo que não lhe servia mais. Queria expulsar tudo que já não lhe cabia carregar. Caminhou trôpega até o rio, liberta de tudo que não fosse a si mesma, e banhou-se, como pela primeira vez. Ouviu o rio dar-lhe boas vindas. Ouviu a terra e o vento acolherem-na nos braços. Sentiu o fogo em seu coração. Era sua casa aquela floresta. Cada pedaço dela, era ela, multi-partida. Era a luz do sol e as gotas do orvalho. De fora do útero, sentiu-se imensa. Sentiu-se livre. Sentiu-se amor.