
Que doce foi provar meu próprio veneno...
Há coisas nessa vida que não se imagina até o dia que se sente. Não sabia o efeito de palavras. Eu, que as amo, que paraliso em seus mistérios e me deleito com suas peculiaridades, me sinto agora tão pequena, garota a cativar estátuas de Deuses. Não que os subestime, pois os respeita, mas foge-lhe aos olhos a verdade: seu poder.
Palavras que se reúnem poderosas, me reviram de dentro pra fora e roubam de mim tudo que mais acreditava ter: palavras.
Tantas vezes tentei em vão lê-las em seus lábios, encontrá-las soltas nos olhos, presas no sorriso, em um gesto qualquer... pedi, hesitei, deixei meus pensamentos passeando por lugares insossos, circulares, para em seguida repreendê-los como um boa mãe à menina levada.
Era outra vez ingênua em pensar que, poderosas como são, elas e seu criador não teriam tempo próprio. Tão impossível pressioná-las antes, quanto impossível fugir e evitá-las agora.
Sim, já vi efeitos de palavras, já ouvi tentativas tão vãs quanto a minha agora para explicar o que quer que seja que se sente... Não há palavra que agüente tanto baticum. Não há coração que chegue, não há cabeça que não gire, não corpo que não sinta, leve, enrubescer, bochechas quentes e vermelhas - pra colorir o pouco bege do meu rosto.
Fechei os olhos em cada pausa, li com demora cada frase. E se fosse um teatro, aquele era meu texto. Decoraria suas linhas, estudando as possíveis entonações e os gestos que poderiam se encaixar. Devoraria palavras, faminta, e, no entanto, mais completa do que soubesse imaginar.
Mas não era teatro. E qualquer coisa que dissesse a respeito seria grande demais, ou pequena demais, ou, sem sombra de dúvidas, clichê. Ainda é bom ouvir clichê? Porque tenho agora um repertório, rondando e sugando todas as minhas palavras, frases seguidas de exclamações, reticências, pontos, frases que colariam bem em qualquer cartaz, e as quais recitaria vorazmente pra você agora, se isso não me deixei ainda mais ruborizada – embaraçada em minhas próprias palavras.
Esta noite, minhas palavras são comuns. Coloridamente comuns.
*Foto retirada de:vidacheiadecoisas.wordpress.com/.../02/palavras