
Outubro que te espero,
Nem sei se logo quero,
Ou prefiro o lero, lero, lero, do barulhinho que vem
Zunindo, baixinho, no meu travesseiro
Antes de outubro chegar.
Falta pouco, pouco, tão pouquinho...
E ainda não sinto a casa arrumada,
Não sinto idéias no lugar,
Não sinto o barco no oceano,
Não sinto se rio onde devo parar,
Ou se choro, só, por me apegar.
Ah...!
Não sinto, acima de tudo,
O tanto quanto eu desejava estar
Só um pouquinho mais pra frente,
Antes de outubro chegar.
- E nesses dias, penso, cá, com meus botões, em cada degrau dessa escada que ainda falta pra subir. Penso em cada dor da mesma pancada, penso em mim, parada, mesma estrada, penso em que rumo todos os rumos vão, ou não, fadada. E é assim, pequenina, que sinto a chegada de outubro, e eu sem casaco de lã, sem sapatos de cristal, sem a voz mansa ou mente quieta, quieta assim, sou, sem estar. É primavera, dizem nos campos, não te preocupa, podes chorar. Cada lágrima vai como orvalho e o sol vem pra te enxugar. Mas pra ninguém é tão outubro quanto o outubro acertou ser, e vem sempre como aquele primeiro beijo, que se sabe, mas nunca se sabe, esperado, anunciado, beijado. E acordo estranha e confesso ou não peço, mas é em outubro, sem antes, sem depois, outubro certo, e eu, incerta, temo te beijar o beijo errado.
Foto: webrecados.com