
Eis a cena*:
Ele bate na porta. Segura um copo de uísque e fala levemente embaralhado. Ela o vê do outro lado. Passa a corrente. Abre uma fresta da porta.
- O que você quer?
- Me deixa entrar.
- Não. São três da manhã.
- Abre a porta, para com isso. Sou eu, o homem com quem você quase casou.
Ele entra, a abraça forte, a segura pela cintura, faz piadinha infame sobre seu decote.
Ela está com um hobby vermelho, dá pra ver a renda branca de sua lingerie quando ela tenta se afastar.
- Uísque? Ele aponta o bar e entrega o copo praticamente vazio.
- É isso. Um drink, e você vai embora.
Ele sorri por dentro. Vai até o balcão e serve dois copos, pouco gelo.
Vão até a varanda, ela anda na frente. Quer um pouco de ar. Ele se aproxima em seguida e respira forte em seu pescoço. Ela perde o ar, de todo jeito.
Sentem o cheiro familiar um do outro, ela o deseja, ele percebe.
Ela o evita. Fala sobre assuntos cotidianos, ele se mostra interessado em tudo que a diz respeito. Ela diz que tem um novo emprego, que está freqüentando um grupo de estudos, religião, espiritualidade. Ele faz perguntas, diz que quer saber mais a respeito, que quer conhecer tudo que a faz bem.
- Se funciona pra você, pode funcionar pra mim também, porque não?
Nesse momento, por alguns segundos, ela o olha com a mesma paixão de antes. Foram segundos, mas ele notou. Era sua deixa. Ela era sua outra vez. Ele a aperta o corpo contra o dela. Desta vez não tem espaço pra esquivar. Deslizou as mãos por dentro do hobby de seda, vermelho.
- Eu sei que você sente a minha falta. Eu sei que imagina que sou eu, quando está sozinha, no meio da noite. Eu sei que sonha em estar exatamente aqui.
Sim, era tudo verdade. Sim, ela o deseja mais do que tudo naquele momento.
Fazem amor. Ela se entrega completamente, respira cada pedaço da pele dele, se deixa tocar, e sente todo o prazer quanto seria possível caber numa mulher. Não era apenas um homem em sua cama. Era ele, e todas as suas peculiaridades, seu toque, trejeitos, olhares, sabores. Era ele mais uma vez, quando ela achava que não seriam nunca.
- Podíamos passar o resto do fim de semana aqui. Eu e você nesse quarto, fazendo amor. Vamos pedir algo delivery e não sair do quarto pelas próximas 48h!
Ele ri alto com a idéia.
- Preciso ir.
- Amanhã a noite é o encontro do grupo. Você pode vir comigo e saber mais, já que está interessado.
Agora, uma gargalhada.
- Eu? Fale sério. Eu não ligo a mínima pra droga da sua religião.
- Mas... você disse...
- Eu disse o que sempre digo: qualquer coisa para levar uma mulher pra cama.
Lágrimas de raiva escorrem em seu rosto. Ela arremessa o travesseiro.
- Cretino... Nojento! Por que eu? Me diz, por que porra logo eu??? Tantas vagabundas ai que você poderia comer, tantas mil outras mulheres gostosinhas loucas pra dar pra você! Por que não procurar uma dessas... por que você veio aqui, justamente aqui?!
E eis a resposta, em um tom sarcástico e palavras lentamente pronunciadas:
-
Ah, benzinho... Mas eu não queria apenas sexo! Sim, poderia ter sexo com qualquer outra... mas hoje, precisava de algo além do sexo. Eu queria me sentir poderoso. Queria me sentir o homem mais importante do mundo. Eu queria, meu amor, me sentir grandioso, especial, único. E isso, nenhuma outra mulher no mundo poderia me dar.
Ela bate em seu rosto. Ele bate a porta.
*livre adaptação da cena de um desses seriados americanos.