Sim, sim, sim! - gritava
para si mesma.
- Sou uma mente confusa...
Por vezes desejava sentir uma
certa solidariedade emocional, a compaixão dos que sofrem ou se lambuzam de
amores tórridos, dos que temem, dos que nunca temem, dos que se entregam, dos
que se esfregam...
De outras, desejava ser apenas. Apenas,
assim, unicamente, exclusivamente, ela. Desejava escapar do medonho roteiro de
ser mais uma, personagem esquecível em um mundo cheinho de
esquecimentos...
E lembranças? O que faria então com
sua memória elefante? Esqueceria realmente todo o esquecível, classificaria “esquecibilidades”,
escolhendo o que ou não guardar em uma caixa antiga de recordações?
Devia ater-se a caixas e caixas
de lembranças lindas, ou soltá-las em bolas de sabão, balões de gás, daqueles que nunca, nunca se
sabe onde irão chegar...?
Era a primeira vez que ele falava
daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente
sentia-se como se fosse.
Ele, no seu mundo trancado a
cadeados, carregando nos olhos o mistério dos que pouco falam, dos que escondem
pensamentos em abismos mais fundos do que os acessíveis ao mais X dos X-men,
mas, contudo (ela sabia...) sentindo – e carregando sentimentos mais “tagarelas”
do ela própria poderia falar, porque ele sentia tanto, porque aqueles olhos
despejavam mares, rios inteiros, e pôr-do-sol, e noites de lua, e cânticos, e
poesia...
Era a primeira vez que ele falava
daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente
sentia-se como se fosse.