

Era um cenário épico.Medieval.
Entraram juntos, fugindo da festa, do barulho, da música estridente que tocava lá fora.
Ela princesa, (ou cortesã - já não se sabe bem, pois que gostava de passear entre suas próprias facetas, entre as fases da lua. Talvez princesa. Talvez não só...) e seu príncipe - mascarados, desconhecidos.
Irresistível se encontrarem exatamente ali. Escondidos, pareciam seguros, apesar dos barulhos do outro lado da porta, apesar deste certo receio dela de que seriam, a qualquer momento, descobertos, de que o relógio bateria meia-noite (ou meio-dia), penderiam-se as máscaras, não teriam mais fantasias...
Agora, já era bem tarde. Ambos haviam bebido da mesma taça, e, embriagados de carnaval, caiam cansados, lado a lado, tombando num sono profundo e com sonhos.
Ele a abraçou apertado. Ela respirou profundo. Dormiam o sono dos anjos, em outro tempo, outro espaço, onde ela sentiu-se segura e querida, onde ele se sentiu a salvo, cansado das guerras e batalhas, onde ele pôde parar de se preocupar e, simplesmente, dormir.
Durante a noite, em alguns momentos, ela abriu os olhos encantados e pensou no dia seguinte. Como seria, como ele seria, sem máscaras, sem fantasia, como seria seu príncipe encantado quando os relógios acelerassem, quando o tempo fosse aquele mesmo outra vez, novo, velho, quando acabasse o mistério e a névoa que envolve todos os amores que mal se conhecem, quando o relógio batesse a hora marcada e terminasse o feitiço?
Será que ainda gostariam um do outro? Será que aquele lugar, aquele abraço apertado no meio da noite ainda seria o lugar onde ambos desejariam, mais do que em qualquer outro, estar?
Ela não teria as respostas. Não ainda. Sabia só que aquele era seu lugar agora. Sabia que acordariam, que o carnaval seguiria, que as músicas tocariam e multidões os guiariam para outros e outros lugares. Sim, se afastariam.
A manhã seguinte, assim como o dia seguinte - incógnitas. Todo o futuro – incerto, como todo e qualquer futuro sabia ser, aliás.
E, naquele segundo, ela amou a incerteza, tanto quanto amou aquele abraço, tanto quanto amou seu sono longo e profundo... não havia expectativa, não havia promessa, não havia garantia.
Havia apenas isto: uma constatação: depois de profundas noites de tristeza, imersa em si mesma, ela estava ali, ao seu lado. E ela sorria.
Ele era presente. E presenteavam-se com suas presenças e com a paz de seu sono.
Ps - " de pierrot e colombina..." rs.