Não procure a verdade no meio das palavras. Palavras são ricas, densas e lindas, lidas apenas assim: como palavras.
Se quiser procurar algo, procure espelhos. Ou sentimentos.
Procure qualquer coisa, menos a mim.
Estão aqui palavras e estórias. Minhas, suas, alheias.
"Eu" vou muito além de palavras, muito além de estórias... deixe-me, por favor, chamá-las pura e simplesmente: palavras.
E ela, que estava ali, caindo de sono, já não conseguia pregar os olhos - ou abrí-los... presa no intermédio, sonhando com cada palavra, relembrando...
A leveza das palavras bordadas nos teclados. Estava feliz porque se encontrariam em breve. Estava feliz pela conversa, pelo carinho.
Sempre teve essa tendência, especialista em complicar coisas. Mas agora, tentando, com cuidado, simplificava assim: você, um sorriso, sua voz e seu beijo.
Tempo de cuidados doces. Leves.
Despreocupados. Sem aflição, sem desespero, sem correria.
Cuidado
com o jardim, a paisagem, as borboletas.
Cuidado
de passar protetor solar pela manhã e escovar os dentes todas as noites.
Cuidado
de deixar espaço livre, cuidado de não fazer tantos planos. Cuidado de escutar,
cuidado de fazer pausas.
Cuidado
de comer bem, cuidado de exercitar. Cuidado de levantar cedo, de trabalhar, de
ter disposição. Cuidado de respirar fundo e espreguiçar. Cuidado de perceber o
que se passa no coração.
Cuidado
de relaxar depois do expediente. Cuidado de ir à praia e pisar na areia.
Cuidado
de abraçar os amigos e ficar por perto, cuidado de ligar no meio do dia e saber
da família. Cuidado de ouvir a notícia importante, cuidado de ler aquele livro.
Cuidado
com a saudade, cuidado de lembrar (com demora...) aquele beijo.
Cuidado
com os sonhos, com pedir sempre proteção antes de dormir. Cuidado e vontade de
responder e estar perto.
Eles se
cuidariam, distantes.
Para
que então (quem sabe, então?), assim, devagarinho, carinhosamente, cuidassem um
pouco um do outro.
"O
maior presente que você pode dar a alguém é o seu próprio desenvolvimento
(...). Eu costumava dizer: ‘Se você cuidar de mim, eu cuido de você’. Agora eu
digo: ‘Eu cuidarei de mim para você, se você cuidar de si mesmo para mim’.”-
Jim Rohn.
Não que não sentisse. Desde a
hora que ele saiu pela porta, era saudade. Quando arrumou a cama de manhã,
quando recolheu as taças, quando trocava de roupa: saudade.
Entendeu que a saudade não era
pela distância ou pelo tempo. Era saudade trazida pela ausência do
recente, do novo... dele. Curioso, porque disseram que pra sentir saudade é
preciso de tempo, mas o tempo mal havia passado, e era saudade, presente.
Ainda assim, escolheu que não, nada de falar em saudade. Preferiu guardar a palavra, como quem finge não a conhecer,
esconder dos lábios e dos teclados, fixar apenas nessas outras tantas
sensações que a percorriam sem qualquer licença.
Das palavras dele, uma frase: “você
tá bem?” Ele perguntava como quem queria ver atrás de cada
pensamento. Como aquela amiga que escreveu pela manhã: “manda notícias sinceras
de você”.
E como estava, sinceramente?
Sentiu certo receio de contar sobre tudo mais o que sentia, sobre cada pedacinho... Receio de
assustar, já que estava, ela própria, assustada – ao notar que responder “bem” era
pouco (tão pouco!), ver que sentia essa paz, e a alegria...
Sim, tudo vem no seu tempo; sim,
a saudade estava e estaria à espreita; sim, não queria pressa, atropelos,
ansiedade. Mas, sim, esse era um dia daqueles em que tudo de bom se sente um
pouco mais, e decidiu aproveitar. Deliciar-se no êxtase que vinha de cada
notícia dele, do coração acelerado, do gosto do beijo em sua boca.
Se devemos permitir quinze
minutos por dia para a tristeza, ela deixaria vários outros intervalos para a paixão.
E no intervalo, o amigo se queixava:
- Gosto dela. O problema é essa presa... É como se ela me dissesse: “tá... pronto! Vai ser com você: e VAMO LOGO.” Sabe como é?
Sim, ela sabia. Pressa era um sentimento bastante familiar. Pensou em como essa tal e específica pressa feminina assusta os homens, enquanto a maioria das mulheres passa tanto tempo procurando ouvir justamente o“vamo logo” de alguém que elas verdadeiramente se interessem. Nos sonhos dourados femininos, esse alguém de quem se gosta vem com toda a pressa, diz que ama, que não consegue ficar longe... não?
Ah, sim, os tempos estão mudando... Mas olhava em volta e ainda via balões cor-de-rosa, inflados com pensamentos e ideais do amor romântico.
Pensou na sua própria pressa. Pelo que tinha pressa, na verdade?
Sua pressa mudava o foco e já nem estava mais no mesmo lugar desde a última vez que a procurou. Pensou na alegria de estar exatamente onde estava e em todos os percalços que a trouxeram, pensou que sua pressa era medo, que seu medo era controle – ou a falta dele –, pensou que a solidão, a pressa, o medo, o controle, e tudo mais que tentava não ver só a perseguia (e com mais pressa!), cada vez que tentava fugir.
Lembrou do amor grand hotel, da paixão atropelada pelo caminhão e transformada em ‘bom dia’. Da paixão que ela achou que viveria para sempre. Lembrou que Iaiá era apenas um retrato tirado por alguém que pecou na vontade e se atirou, depois de óbvios utópicos beijos e de constatar que “prever serviu pra eu me enganar”. Iaiá, tão invisível quanto a mulher do filme, projetada milimetricamente, como uma capa de chuva - mas para proteger do amor e suas dores, formatada para poupar seu criador de toda a angústia da pressa (ou da falta dela), de todas as tolices que pertencem ao mundo dos que se apaixonam.
Ela ainda era 'de paixões' e não pretendia mudar. Se seus passos tornaram-se mais lentos, porém, ao longo do caminho, e se a paisagem lhe trazia novos ângulos e sons, sentia-se disposta a seguir.
De longe, ouvia: "- Não se engane, sangue quente corre em suas veias, e a própria natureza não cabe mudar".
Mas há no peito um coração de muitas canções e muitos ritmos – e no olhar a disposição para enxergar um pouco além e, quem sabe, dançar novas músicas.... (talvez, até, um pouco mais lentas).
Um beijo. Assim, um, único. Não o
primeiro, mas o beijo de estreia.
Bastava mesmo só um beijo? - pensou,
mordendo os lábios... Sentia ainda o
corpo vibrar, frenesi do beijo adolescente, o beijo, o re-contato. O beijo
beijado, sonhado por tantas noites, beijo abandonado (do qual desistira de vez!),
o beijo que já até aceitava que não viria mais. Foi o beijo esperado mais
alheio às suas expectativas!
Era como se voltasse no tempo.
Voltou no tempo, à época em que tudo
entre os amantes tinha um tempo certo: sorrisos, conversas pausadas, suspiros, mãos
que se tocavam “acidentalmente”, olhares flertivos, elogios tímidos... O
delicioso intervalo entre os encontros. O tempo-obstáculo que trazia saudade e
vontade de nunca afastar. O tempo-romance que fazia durar cada palavra, cada
perfume da presença alheia, quando bastava fechar os olhos para sentir de novo,
para ver... O tempo anti-tecnológico, não interrompido por
ligações, torpedos, e-mails... Ah, sim, o curioso tempo entre hoje e amanhã, o
desejo de mais, a dúvida da reciprocidade. Ou a certeza da mágica que reúne as
pessoas ao longo do tempo.
E o que fazer com aquele beijo? Esquecer? Guardar?
Encontraram-se antes e decerto encontrariam-se depois, mas agora, entre eles,
havia o beijo.
Por um minuto teve medo. Sentia medo
do gosto feliz nos lábios, do coração transbordando, medo da mão acarinhando o
cabelo. Medo de sentir o que quer fosse que não fizesse sentido...
Fechou os olhos. Voltou no
momento exato que se encontraram, sentiu de novo exatamente quando... Sorriu da
ironia. Aquele único beijo foi incrivelmente repetido.
25 de dez. de 2012
Não existe príncipe encantado.
Não existe príncipe encantado.
Não existe príncipe encantado.
Não existe príncipe encantado.
Quantas vezes precisarei repetir para acabar de vez com o "damage" que me fizeram os contos de fadas?
Sem explicação, procurava por chaves a todo
momento.
Como uma espécie de toque, hábito antigo, veneno anti-monotonia. Uma dessas
compulsões incontroláveis e inexplicáveis: portas fechadas a instigam,
inquietam, atraem...
Admirava o valor da reserva, o cuidado, as
precauções com o que se guarda. Porque se guarda? Pergunta.
Contudo, não a levem a mal: sua curiosidade
ultrapassa, em muito, portas alheias. Estendia-se, justamente, nas portas auto-trancadas
- naquelas que escondia de si mesma, entre cadeados, baús, fechaduras quase
intransponíveis, dos quais evitava lembrar ou perceber...
É a curiosidade pela própria sombra, pela
escuridão dos passos seguidos, quando o andar parece desmotivado ou esmo; pelas
palavras não proferidas, ou pelas gastas de tanto usar, mas que não saberia de
onde vieram; pelos gestos que negava externar ou pelo que quer que conduzia
seus gestos mais cotidianos e banais.
Todos trazem suas portas lacradas, suas caixinhas
de reserva: temidas, ignoradas, disfarçadas. E tantas vezes repetia: não há
mais nada o que procurar.
No entanto, no mais inusitado dos momento,
recorreria as suas portas secretas, acessaria o seu escudo e suas armas,
lutaria como uma total desconhecida, com forças nunca antes vistas, com vigor
nunca antes sentido, capaz do que nunca pensou ser capaz.
E no entanto, sempre que se sentisse derrotada,
recorreria as suas portas secretas, acessaria um arsenal de ataduras,
ungüentos, colírios, antídotos - técnicas milenares para recuperá-la e trazê-la
de volta do mais profundo dos profundos.
Naquela tarde, perdeu a conta do quanto de si
escoou por esquecer suas portas entreabertas.Admirava as portas bem trancadas, anti-pressão, anti-vácuo,
anti-bisbilhotagens. Portas hermeticamente fechadas, como se diz por aí.
Sim, estava sempre a procurar por chaves e
quase nunca trancava suas portas. Exceto aquelas que trancava para si mesma.
Por vezes desejava sentir uma
certa solidariedade emocional, a compaixão dos que sofrem ou se lambuzam de
amores tórridos, dos que temem, dos que nunca temem, dos que se entregam, dos
que se esfregam...
De outras, desejava ser apenas. Apenas,
assim, unicamente, exclusivamente, ela. Desejava escapar do medonho roteiro de
ser mais uma, personagem esquecível em um mundo cheinho de
esquecimentos...
E lembranças? O que faria então com
sua memória elefante? Esqueceria realmente todo o esquecível, classificaria “esquecibilidades”,
escolhendo o que ou não guardar em uma caixa antiga de recordações?
Devia ater-se a caixas e caixas
de lembranças lindas, ou soltá-las em bolas de sabão, balões de gás, daqueles que nunca, nunca se
sabe onde irão chegar...?
Era a primeira vez que ele falava
daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente
sentia-se como se fosse.
Ele, no seu mundo trancado a
cadeados, carregando nos olhos o mistério dos que pouco falam, dos que escondem
pensamentos em abismos mais fundos do que os acessíveis ao mais X dos X-men,
mas, contudo (ela sabia...) sentindo – e carregando sentimentos mais “tagarelas”
do ela própria poderia falar, porque ele sentia tanto, porque aqueles olhos
despejavam mares, rios inteiros, e pôr-do-sol, e noites de lua, e cânticos, e
poesia...
Era a primeira vez que ele falava
daquele jeito. Ou, talvez, não fosse esta a primeira vez, mas certamente
sentia-se como se fosse.
Enquanto percorria, confuso, os retratos e maus tratos pelo computador, enquanto relia e-mails trocados sabe-se lá quando, ou quanto, ou com quem...
Matava-o a duvida. Dividi-la seria repartir parte de si mesmo, mas se escolher, sem desejar, sem opinar. Não. Não a veria outra vez, para outra vez repassar todas as noites, os retratos, os maus tratos registrados em seu computador.
Maldizia o mundo tecnológico. Preferia as cartas, assinadas ou apócrifas, mas de próprio punho, dignas de precisas investigações caligráficas e combatidas em duelos decisivos travados no final da tarde cinza de uma sexta-feira.
A espera do fim de semana não o ajudava em nada. Verificar registros em busca de conversas apagadas, ou passadas, ou que nem sequer existiram, mas desde então ressonavam em seus pensamentos, como os mais doces cânticos de amor – ou de morte.
Reservava-se, no entanto, o direito de não pertencê-la. Nos braços de outras, anestesiava sem culpas seus pensamentos mais sórdidos e descontava, ah, descontava, cada uma das traições não traídas, ou traídas, extraídas, naqueles poucos momentos de gozo e de prazer.
Parecia mesmo que não bastavam um ao outro.
E ainda assim ela era tudo que ele queria, tudo que não o sossegava, que o cegava, que não o deixa dormir após prazeres, lazeres, afazeres inventados para preencher seus medos-vazios.
Na janela ao lado, ela dormia.
Sonhava com longas noites de amor e brigas ferrenhas e violentas, revezando seus sonhos entre dores e alegrias, igualmente plenas. Ela dormia, sem escutar angustias ou gemidos advindos do quarto ao lado.
Ela dormia a felicidade dos que ignoram e, ainda assim, sonham.
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação? Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos Fingir que hoje é domingo, vamos ver O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão? Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto? Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol Vamos, amor? Porque excessivamente grave é a Vida.
Vinicius de Moraes
*foto extraída do site: http://diamantesdeacucar.blogspot.com/2010/06/ser-feliz.html
Porque pra mim o tempo não passa, Porque me inspiro como respiro Porque saudade se tem até de perto Mas você não me parece tão distante
Porque desejo acordar nos seus braços Porque conheço detalhes de seu riso Porque um sonho pode ser só mais um Mas sinto você, bem real
Porque nossas realidades se encontraram Porque foi no mais exato e especial lugar Porque não sei se foi só mais um golpe da magia Mas é por você, e só você, que me encanto.
Eram pés cheios de calinhos. Não que desgostasse, pois não se reclama de pés tamanho 34, ensejadores oficiais de elogios fofos dentro e fora dos sapatos.
Seus calinhos eram o que eram: marcas secas de longas caminhadas, discretas rachaduras, do tempo, das pegadas firmes, das mal pisadas, cicatrizes próprias de suas escolhas.
Ainda assim, resolveu livrar-se deles. Verdadeiras damas têm pés finos, macios, agradáveis, pele suave e hidratada em todos os pedaços.
Ora, os seus calinhos destoavam dos standart atual de delicadeza feminina. Era preciso enquadrar-se, curvar-se aos moldes adocicados de beleza, assim como seus não tão finos pés.
Marcou consulta. Um especialista. Analisou calo a calo, linha a linha, impressionado. Parecia mesmo assustado. Meus pés, me olhavam ainda mais assustados. Era um de dia difícil para eles.
Acalmei-os. O especialista ajudou: massagens e cremes perfumados, refrescantes... até a lixa foi gentil com eles.
Sai feliz e satisfeita. Tinha pés como os das mais belas, pés de artistas de cinema! Uau!
Uau! Uau, au, auuu, ai, ai, aiiii, poxa vida!
Como dói.
Foi isso. Meus sapatos me detestam. Todos, todinhos, só restaram umas velhas havainas, porque elas não odeiam ninguém, coitadas.
Era como se tivesse desaprendido a andar, de tão desajeitada que fiquei. Ai! Outro pedacinho que se contorcia, as voltas com as tiras de minhas sandálias vermelhas: lindas e cruéis.
Meus pés retrucaram. A cruel era eu. Lapidadora injusta de calinhos de proteção!
Era apenas o silêncio de sua alma e a vontade de nunca, nunca parar – voltas musicadas de um carrossel sem curso, sem hastes, sem freios...
Desejava ligar e contar tudo. Palavra por palavra, proferir, ato obsceno e escandaloso que era a verdade que cercava, sem medo, sem preparativos, simples, direta.
- É você.
Não se sabe o fim da estória. Todos os prováveis e improváveis caminhos que os direcionariam dali, daquele inusitado encontro, das destemidas palavras, das palavras de agora, que mudariam tudo. Ou apenas direcionariam seus pés ao caminho que já era deles.
Não saberia.
E deslumbrada por não saber, sentava-se em frente ao computador, deixando que os dedos ditassem as palavras que lábio algum comportava... Ao menos não sem transformá-las em beijo, em desejo, em amor.
Não sabia exatamente como seria ser amada, exceto por si mesma: pois para amá-lo tanto, inevitável sorrir (como para um espelho), mesmo no mais chuvoso dos dias, a felicidade do amor.
"Como é por dentro outra pessoa? Quem é que o saberá sonhar? A alma de outrem é outro universo. Com que não há comunicação possível, Com que não há verdadeiro entendimento. Nada sabemos da alma Senão da nossa; As dos outros são olhares, São gestos, são palavras, Com a suposição de qualquer semelhança No fundo." Fernando Pessoa.