30 de nov. de 2020

“Viver é uma questão de início, meio e fim”


 

Me escreve uma carta.

Me escreve uma carta.

Ao menos ouvi na época em que ainda havia palavras. Esperança boba de um reencontro na esquina dos planos que estacionamos.

E agora? E agora que já não há mais nada?

Nada além de um desejo sincero em ter de volta todas as chaves, endereços, percursos, CEPs, retomar cada um dos meios que poderia ter de me acessar na vastidão de um planeta pequeno, num espaço imenso...

Não há mais carta. Não há caminho.

Girei a chave, mergulhei de cabeça entre o vão e a palavra e agora, afogada nas minhas próprias descobertas, não sobrou ar, não sobrou gravidade, ou tudo é lento como o dia que passa na janela independente da vontade, como um tempo escorregando e um corpo que se mexe, sabendo que acordou e tem medo do dia.

E como dizer que não tive luto? Ah, tudo que vivo, luto.

E a vida da gente é mesmo assim, com portas fechadas por chaves que entregamos, com sonhos que contamos e vamos abandonando, das culpas que sufocam, das escolhas que tememos.

Sinto o gosto de tudo que encontrei. É a mistura de um soco na cara com o embolado feroz em uma onda do mar. Quando falta o chão. Quando não se encontra o próprio corpo.

Sou água, sal, espuma e estilhaços de vontades.

Sou tristeza, destoando de todo esse sol.

Não ficou desespero. Nem ansiedade. Não ficou coragem.

Alguém só me diz: o que acontece com o amor?



Foto: https://imagin4rium.wordpress.com/2014/01/10/onda-violenta/

8 de set. de 2020

"É um insight soturno, é o futuro passando, na velocidade terrível da queda..."

Sobre a queda e outros demônios...


Naquele dia, caiu da bicicleta.

Na hora mesmo, não lhe pareceu nada demais, tombo leve, pouco machucou, o susto, impacto de deslizar sem controle, mãos e rosto encontrando com o chão.

Já dois dias depois, decidiu sair pra pedalar. Subiu na bicicleta, tentando ignorar e desconectar do corpo dolorido (sim, quarenta anos não são como os vinte, seu irmão não deixou passar...), tratou como mais um dia - um dia normal - fazendo aquilo que mais trazia prazer nos últimos meses, sentir o vento no rosto, a liberdade, a amplidão...

Não foi tão simples. A cada giro, a lembrança da queda, a sensação salgada e paralisante. O medo. Medo de repetir, a qualquer segundo, medo de uma pancada ainda pior, medo da curva, do desnível no asfalto, da velocidade... Medo de não ver o perigo, de não frear a tempo.

No início, tentou de todo modo racionalizar, dar proporção e advogar por si mesma: "você vem fazendo isso há meses, sem cair", "não está chovendo hoje", "aquela bicicleta era diferente"... Mas nada pareceu funcionar. Todos os argumentos tinham sentindo, mas vinha das entranhas o que gritava: "volte!", "pare!"... "você não é boa o suficiente, não tem o equilíbrio, a destreza, a prática... Vai cair", "desista". 

Ah, essa advogada é também cruel, soube transpor em pensamento o pânico, que ainda assim devorava mais que o verbo, secava a garganta e tensionava-lhe os ombros...

Seguiu em frente. Não sem chorar, algumas vezes, no caminho. Não sem doer as mãos, endurecer os dedos... E sempre com aquela voz ao fundo, da desesperança.

Mas ela era do ímpeto e dos planejamentos, algo não autorizava desistir... E decidiu ainda um novo desafio, um percurso maior, só pra garantir, só para não congelar...

A todo momento, o fantasma da sua queda a acompanhou. Entre as voltas do caminho, quase não achava o prazer e a alegria das saídas de antes, tentando parar o zumbido em seus ouvidos.

Pensou nos amores perdidos e nas dores do passado. Pensou em cada fratura de seu coração, nas ideias fixas de fracasso, nas vozes, no medo. Pensou no ímpeto e nos planos para não desistir.

Sentir o medo e continuar girando. O tremor e a taquicardia. O vento no rosto e a vontade de retomar a alegria.

Sua decisão era por novas memórias. Novas experiências que a afastassem da dor, o resgate, uma construção.

Memórias de vida que seguiriam, até que a queda estivesse cada dia mais distante, ocupando os vãos de espaços não-vazios. Até encontrar um novo ausente, até se dissipar, como fina névoa, entre as lembranças que quase já não conseguimos lembrar.



Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjHApNLCAlZK9c1cTseF8UpnfLROuqq0MXSjLKXFbh8UrO6QksYmerSibLF36xTb8bFJUxe8Tcpl73KuwZcWIdVN1OBE9YCN4UZb1H_gV__oGTGItjD4Vvv9Kl-Ffxtii_IGrlL/s1600/bicicleta+montanhas.jpg

“No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”





Porque nem todas as palavras são doces.
Nem todos os risos, sinceros.
Nem toda foto, um retrato...

E acha mesmo que não dá pra notar?
Acha que é só disfarçar, que é assim, rápido, o tempo caminhar e esquecer?
Bem simples, de leve, ela vira pro lado, adormece...

Essas outras conexões
Postas, tapam buracos
Consolam, massageiam, acalmam
(e acalmam?)
Postas para reafirmar... "tudo-de-melhor-e-demais-belo-nesse-mundo... "
Como chamam mesmo?
(Máscaras).

Sigamos. Transformando em links cada insegurança, teclando, esquivando, fugindo se um rastro qualquer aparecer no meio de um café.

Alimentar o ego com o olhar alheio...
Impor, expor, ser visto.
Depois dormir, tranqüilo, preenchido, desejado.
E não se preocupe, se dormem ao seu lado.
(A ingenuidade é o new black.)

Diga ainda que não é nada (não foi nada, nada demais...).
E quem nunca? Agora mesmo, pode estar acontecendo pelo lado de lá... Vai saber! O mundo é um sem-garantias infernal.

Assim, sem bobeiras dessa vez.
E ser fiel anda tão démodé.
E ser transparente é oposto do sexy...
Melhor aqui, mergulhe aí, aproveite o sinal.
Depois conta se foi um deleite.
Depois diz se confortou seu coração, se amortece o buraco.

Depois, depois, depois, depois, confirma se mostrou cicatrizes, se abriu o peito, se chorou de angústia. Depois diz se valeu, ou se foi tudo isso, apenas isso: mais do mesmo.

Procura aí. Fica aí. Depois me conta...
Ou nem conta. 
Afinal, algumas coisas, ninguém tem que pagar.   

13 de jul. de 2018

..."Um pouco antes desse amanhecer, naquele instante em que acordei pra ver"...




Espera, um momento.

Deixa o dia começar, deixa o sol chegar, esquentar, deixa o hora, o sorriso, deixa o vento bater, o abrir da janela, deixa, deixa, eu virar pro outro lado e te ver...

Deixa a calma, deixa a alma preencher os segundos parados, os minutos que congelam naqueles segundo de trás....

Deixa o beijo... Um momento. Não chama, não pede, não tenta.... Deixa o espaço entre o vão e a palavra. 
Entre a palavra e a coisa, entre a coisa e o vão...  
Deixa eu te ver, deixa sentir...

Deixa a tua presença preencher os cantos, os contos, todos os sons do nosso amor... Deixa que cada nó se faça, e se desfaça entre nós.

Porque é assim que se chama, porque assim a chama, porque é assim que chamo, só pra mim... Amor. 





Foto: http://www.pranazen.com/mantenha-a-calma/

"... Parece que o coração carece e diz: ‘Para!’ silencia, se embrulha e se embaralha... "




Porque podemos parecer Fortaleza.
Escudo de aço, armadura impenetrável... Porque é possível calar, controlar qualquer som ou gemido, todo grito.
Porque podemos segurar o choro. Impedir que a lágrima chegue a cair, ou que essa mesma lágrima se forme, no canto do olho.

Porque podemos parecer Fortaleza.
Velha máquina 'descabeada' e sem wifi... Porque é possível bloquear, desviar toda fonte ou acessos, toda conexão. 
Porque podemos desligar a tomada.
Impedir que a mensagem se torne nuvem, ou que a ideia se torne mensagem, pelos teclados de um celular qualquer. 

Porque podemos parecer Fortaleza. 
Blindar o corpo, o olhar, ou mesmo o ar que nos circula naquele mísero instante.
Podemos parecer tanto, tão bem e convencidamente.
Podemos até acreditar, ou deixar que acreditem.
Podemos tudo isso, até mais.
Podemos.

E ainda assim, quase que óbvio, quase clichê: nem tudo que parece, nem tudo que se vê, é exatamente o que demonstra ser...

(Se a ideia era suportar de tudo, que bom já não dá mais. 
Se tudo que se arremessa fosse paz, não precisaria (pare) ser fortaleza...)

“These are the days it never rains but it pours”




Um dia de sol no meio da chuva,

Gotas de orvalho num dia de sol.

Todo o belo, doce, todo o sutil...

Furacão, granizo, terremoto, avalanche. Todos lindamente inesperados, imprevistos nos radares das brisas mal interpretadas, das nuvens de chuva mal lidas, dos tremores imperceptíveis.

O que pensa? O que responde que não seja dor, o que esconde que não seja o mesmo, o que propaga que não seja tão, simplesmente, inapagável?

Procure as respostas que ficaram faltando, procuro o diálogo que não aconteceu.

Deixe de fora todos os sem sentido do formato, abandono as antigas formas de sentir.

Lembre de cada flor ou pedra do caminho, tento não tropeçar pelos abismos que cruzam meus pés.

Tão tolos, tão perdidos...

Como se a escuridão de antes não fosse suficiente, como se os dias frios, as noites vãs, as ausências, a morte...

A morte que espreita aquele lado vazio, ou embaixo da cama, e que já levou o sono alguma vez.

Naturalmente...

Como um dia de sol no meio da chuva, gostas de orvalho num dia de sol. 





Foto: https://www.hellorf.com/video/28311832/similar

11 de jan. de 2018

"...Yours are the sweetest eyes I've ever seen..."


Eles esperavam um pelo outro.
Ao longo do caminho, se preparam para o encontro.
Passaram pelos dias de sol, os de chuva, as vezes nevasca, as vezes deserto... Atravessaram.
Passaram pelas noites vazias, pelas tardes cheias, pelos feriados de silêncio e pelos de barulho.
Viram multidões solitárias e estiveram plenos sozinhos.
Acreditaram, desacreditaram, depois acreditaram novamente.
Sentiram medo.
Um pouco, inclusive, quando se encontraram.
Bastante, talvez, quando se reconheceram.
Eles esperavam um pelo outro.
Foi um encontro com velocidade e receio.
Mas sabiam.
Foi um encontro com o prazer dos bons momentos.
Pois sabiam.
E eles esperavam um pelo outro. 

10 de jan. de 2018

"Because you know I'm all about that bass..."


Chegaram as noites de verão
O Beltane, o beijo, o aconchego das noites quentes...
E eles eram o próprio verão, transformando em brasa os mais lentos suspiros.

27 de dez. de 2017

"Eu sei também tem gente me enganando, mas que bobagem, já é tempo de crescer..."

Sobre Ela. 


Ela já me trouxe muitas coisas...

Tanta raiva me deu, esta Senhora. Ira, até, se posso dizer... E Dor, disposta de um jeito que a Dor não se deveria dispor. 

Dor assim, com D maiusculo, para não se menosprezar, para não subestimar.

Dor da que não desejo a ninguém, nem mesmo a ela. Mesmo com a raiva, mesmo com a angústia.

Trouxe ainda toda essa indignação. Muita, bastante... 

Como é possível? Não entendo. Tão contraditória, tão oposta à tudo que é isso... Então, por um "suposto amor" se pode tudo? Uma "paixão"? Vamos ignorar outras mulheres, suas estórias (desconhecidas) de vida, o quilo de sal que já comeram, cada pedra que enfrentaram no caminho, todos os leões que encararam, cada medo e dificuldade que fitaram, sem piscar, sem desviar.... Vamos chamar de falsas as suas versões? 

Que maior violência contra a mulher do que aquela que cometemos, conscientes, contra as que cruzam nosso caminho?

Ser contra essa violência é muito mais... É pisar cada passo com responsabilidade, considerando a "outra" sem competir, sem diminuir e, especialmente, sem a violentar e/ou humilhar com o menor dos nossos gestos.

Cada um de nós escolhe por onde seguir, que papel interpretar. Não somos responsáveis pelo papel do outro. Não nos isentamos da responsabilidade do papel que escolhemos representar. Fora da adolescência, não somos vítimas do nosso querer, nem objeto do querer do outro. 

Faço a minha parte: desde que esta Senhora entrou na minha vida, peso todos os meus pensamentos sobre ela.

Não sou perfeita. Senti muita raiva. Ira, até. Mas especialmente, senti indignação. Por tanta incoerência. Por todo descaso que me deferiu - a mim: a mulher, a mãe, a estória: desconhecida (mas nem tão incomum, mas nem tão alheia...).

Desde que está Senhora entrou na minha vida, peso todos os meus pensamentos sobre ela.

E procuro vê-la além de suas imperfeições. E sinto muito por todo mal que ela me causou. Ela. Que ela causou, por ser quem aparentemente é, e ter as atitudes que teve. Ela, por dizer o que aparentemente diz, pela maternidade, pelas amizades, pela estória do amor que acabou, pelos leões que supostamente matou, pela dita não violência. 

Pessoas assim nos fazem questionar sobre esperança, sobre confiança, até sobre amor. 

Mas vigio os meus pensamentos e palavras sobre ela.

Não vou pagar na mesma moeda. Não é olho por olho. Não me autorizo isso. Sou mesmo contra a violência. 

De mim, terá apenas a triste constatação da sua fraqueza. Porque um "suposto" amor não justifica tudo. Imagine menos. Tão menos... Porque atitudes pode negar todos os nossos discursos bonitinhos.

De mim, terá apenas o sincero desejo que a sua vida seja melhor. Para que não precise mais machucar ninguém, pra que possa ser alguém melhor pro mundo...

Feliz aniversário pra você! Não te dou meu ódio, não te dou minha raiva, minha dor, ou qualquer ressentimento. Todos eles se foram, ainda bem!

Deixo que cultive e colha suas próprias sementes, suas responsabilidades e consequências, como qualquer uma de nós pode fazer. 

Não desejo mal, não farei o mal... Posso dizer que te dou apenas isso: o desatar do nosso nó, a liberdade de seguir, desvinculada de mim, fora da minha estória, fora do meu alvo, do meu mal dizer... 

Siga em paz, se for de paz o seu caminho. Ou apenas siga... E leve seu rastro, seu lastro, seus restos. De você, não quero nada: absolutamente nada, além desse laço solto, do desatar, do fim do nós. 


Ah, e não se confunda comigo. Que possamos descruzar nossos caminhos. Simples assim.


Fonte da Foto: Disponível em: http://hospitalhacos.blogspot.com.br/2013/08/conheca-os-22-habitos-de-pessoas-felizes.html. 

22 de dez. de 2017

"Well, just wake up, kiss that good life goodbye..."


Vamos brincar de gangorra?

Com três impulsos te jogo no alto, mas não esqueça, podemos cair...

E esse gosto amargo da sua distância apaga dos meus lábios o beijo interminado de ontem... Beijo de despedida e eu nem sabia, beijava eu, desavisada, porque nunca sabemos exatamente qual dos beijos pode ser o último e talvez por isso eu beije cada um com tanta intensidade...

Já estive pronta pra ir, se é que se apronta pra isso... Já estive pronta pra ir embora, tão rápido quanto para irmos à Paris, ou ao Capão, ou para passar o Reveillon num beijo, ali na esquina, logo mais.

Já estive pronta pra ir, pois o meu coração  acelera, mas não arreia as malas onde não vê repouso, não finca os pés em terra que não seja fértil, não se permite amar sem a profundidade toda do oceano no olhar, e fica atento aos suspiros do verão.

Já estive pronta pra ir, mas você preferiu não deixar - e nunca saberei bem a verdade - se por capricho, por vontade, se só pra saber se eu ficaria, se pra saber se eu encaixava ali, entre as suas coisas mais preciosas, ou se caberia em alguma estante, alguma vitrine, algum canto especial que usamos para aquecer a alma em noites frias, ou pra tornar mais quente as noites quentes.

E esse gosto amargo da sua distância retira, lentamente, os véus singelos da paixão, põe abaixo a doçura de encantamentos, derrubando nossas noites com uma onda inesperada de informações, de testes, de percepções, de dados, de tudo aquilo que não se pede (até se nega!), quando a doçura é a dos encantamentos...

Não estava pronta agora, ainda arrematada pelo último beijo; não estava pronta agora, quando suas palavras se confundiam com acalanto; não estava pronta agora, quando o dia clareou entre nós e nossas horas continuavam as mais longas e quando toda a guarda te abria espaço pra me povoar, como em um jogo qualquer de conquistar territórios... Como quando os soldados desistem de guerrear.

Não estava pronta agora, mas com o amanhecer do dia, é o que era: um novo sol, uma nova manhã, e todo o carinho a ser embrulhado, guardado cuidadosamente em sua caixa de memórias, junto com as lembranças que não iria misturar nessa lama do agora, que seja lá porque afogava a tudo...

Guardaria longe as suas noites, as palavras, guardaria longe cada beijo, cada sensação. Guardaria longe toda a coragem de aproximar, de ser vista, de não esconder seus medos e estórias, de confessar seus medos e estórias, de se deixar seduzir. Guardaria.

O sol nascia, então. E terminava ali a noite passada.

Sentiu uma lágrima escorrendo, quente, pelo canto do olho. Queria um beijo, pra amparar...

Mas o sol nascia, então. E terminava, ali, a noite passada.

28 de nov. de 2017

"I hope you don't mind, that I put down in words... "


Proposta.

Vamos não nos casar?

O que a acha então, cada um com seu edredom, dormindo espalhados na cama e trocando mensagens gentis de boa noite, daquelas que aquecem o corpo e quase tem cheiro, e quase tem sabor...

Vamos não nos casar, esperar ansiosos nossa noite chegar, aquela ansiedade boa, aquela das borboletas, adolescente, saltitando pela barriga, das mãos geladas, do coração apressadinho...

Vamos não nos casar! Encher a banheira, comprar o champagne, e na nossa noite será sempre festa, sempre feriado, sempre offline...

Vamos não nos casar e nos abarrotar de gentilezas, de mimos, de primores, vamos vibrar no toque da campainha, no abrir da porta, e depois, sofrer um pouquinho na hora de partir, e ficar com o gosto da saudade na solitude...

Vamos adormecer nos braços da saudade que arrepia... Meio singela, meio sensual... A saudade que sussurra no ouvido: "me espera, volto já!" ahhhhh, vamos não nos casar!!!!

E nos falar no intervalo, e nos falar em todo intervalo, em cada brecha do dia, você me diz bom dia, manda flores, e eu tiro fotos loucas (e me prometo: será a última!), até uma próxima refeição (foto de comida, não!!!) e quando eu vir, já enviei, já foi, já mandei, vamos trocar fotos esquisitas e atrapalhar o trânsito das estrelas...

Vamos não nos casar e fazer de cada beijo uma estréia, de cada manhã primavera, de todas as noites nossas noites no coração um do outro.

Vamos não casar, ter tempo ao léu, cada um com cada um, sozinhos com nossos espelhos, vamos ter tempo de maturar, de crescer, até o outro chegar... e teremos novidades pra contar, um detalhe a mais pra desvendar...

Vamos não casar e usar alianças de tempo, de vento, de história, alianças de colorir, visíveis aos nossos olhos, visíveis em nossos olhos, visíveis para aquele que nos vir... Na fila do pão, no mercado, no meio do almoço, atravessando a rua ou esperando nosso encontro chegar...

Vamos não nos casar sem medo, sem padre, sem contrato, vamos não nos casar sem nem pressa, porque o nosso não-casamento será cuidadosamente planejado no universo do não-planejamento, perto do vale dos sem-expectativa, rodeado pelas flores de deixa-acontecer.

Vamos não nos casar e ser assim, como essas palavras, que pegam, amarram, afogam... que param o carro porque querem vir, urgentes, porque querem tanto, tanto, ser do mundo...!

E assim, de repente, seremos os não-casados menos e mais casados que "foram uma vez," dos que se ouvia e falava em cada conto de fadas (e de bruxas).

1 de abr. de 2017

"Pague os favores que me deve antes de sair..."

Ô saudade, vem você, mesmo no meio de tanta dor, do desespero, da afiliação...

Ô saudade, pede licença, seja mal vinda, junta seus panos, seus planos, seus danos, parta antes de chegar...

Ô saudade, já ia mal sem seu gosto nos lábios, não se atreva tomar meu corpo, não se alongue no meu coração...

Ô saudade se tudo peço, se é a sua morte, o posto, sem sorte, da minha solidão...

Demore (não), desmanche (então)
das lágrimas, todo o sal,
da noite, todo o escuro,
da ida, meu porto seguro.
E de você,
saudade, todo muro. 

30 de mar. de 2014

"Agora que nós somos dois amantes, cinzas...."






E ela, que estava ali, caindo de sono, já não conseguia pregar os olhos - ou abrí-los... presa no intermédio, sonhando com cada palavra, relembrando...


A leveza das palavras bordadas nos teclados. Estava feliz porque se encontrariam em breve. Estava feliz pela conversa, pelo carinho.


Sempre teve essa tendência, especialista em complicar coisas. Mas agora, tentando, com cuidado, simplificava assim: você, um sorriso, sua voz e seu beijo.


Boa noite.   


27 de jan. de 2014

Cuidadosamente.


Era um tempo cheio de cuidados.

Tempo de cuidados doces. Leves. Despreocupados. Sem aflição, sem desespero, sem correria.

Cuidado com o jardim, a paisagem, as borboletas.
Cuidado de passar protetor solar pela manhã e escovar os dentes todas as noites.
Cuidado de deixar espaço livre, cuidado de não fazer tantos planos. Cuidado de escutar, cuidado de fazer pausas.
Cuidado de comer bem, cuidado de exercitar. Cuidado de levantar cedo, de trabalhar, de ter disposição. Cuidado de respirar fundo e espreguiçar. Cuidado de perceber o que se passa no coração.
Cuidado de relaxar depois do expediente. Cuidado de ir à praia e pisar na areia.
Cuidado de abraçar os amigos e ficar por perto, cuidado de ligar no meio do dia e saber da família. Cuidado de ouvir a notícia importante, cuidado de ler aquele livro.  
Cuidado com a saudade, cuidado de lembrar (com demora...) aquele beijo.
Cuidado com os sonhos, com pedir sempre proteção antes de dormir. Cuidado e vontade de responder e estar perto.

Eles se cuidariam, distantes.

Para que então (quem sabe, então?), assim, devagarinho, carinhosamente, cuidassem um pouco um do outro.




"O maior presente que você pode dar a alguém é o seu próprio desenvolvimento (...). Eu costumava dizer: ‘Se você cuidar de mim, eu cuido de você’. Agora eu digo: ‘Eu cuidarei de mim para você, se você cuidar de si mesmo para mim’.”- Jim Rohn.




crédito da foto: http://umavidaverde.com/


23 de jan. de 2014

Quero assim... rs



Não quero que você
Seja mais um fiel (ou cruel...)
Que construa castelos de vento
Nem diga que me ama
Um tanto assim
Quero de você
O que quero pra mim

Que permita um tanto,
Aceite outro pouco,
Quero que deite do meu lado (inteiro, calado)
 E não se assuste
Se a paixão chegar
Tomar, sugar, arrepiar.

E se a paixão vier, deixar
Desconstruir todas as verdades
Desnortear todas as bússolas
Desacertar todos os relógios

Quero que não brigue
Se eu for bem perto
E beijar por dentro
Seu coração

Quero que perceba
se os relógios congelarem
em nosso beijo
e não assuste
se acelerar um pouco mais o coração

E na boca
Umedecer seus lábios
Com um veneno original
(bem meu, receita própria)
Para morte lenta, suave
E inesquecivelmente feliz.


- Porque, às vezes, (e só às vezes) também se morre de alegria. 

9 de jan. de 2014

Porque Sim.


Nem ia falar em saudade.

Não que não sentisse. Desde a hora que ele saiu pela porta, era saudade. Quando arrumou a cama de manhã, quando recolheu as taças, quando trocava de roupa: saudade.

Entendeu que a saudade não era pela distância ou pelo tempo. Era saudade trazida pela ausência do recente, do novo... dele. Curioso, porque disseram que pra sentir saudade é preciso de tempo, mas o tempo mal havia passado, e era saudade, presente.

Ainda assim, escolheu que não, nada de falar em saudade. Preferiu guardar a palavra, como quem finge não a conhecer, esconder dos lábios e dos teclados, fixar apenas nessas outras tantas sensações que a percorriam sem qualquer licença.

Das palavras dele, uma frase: “você tá bem?” Ele perguntava como quem queria ver atrás de cada pensamento. Como aquela amiga que escreveu pela manhã: “manda notícias sinceras de você”.

E como estava, sinceramente?

Sentiu certo receio de contar sobre tudo mais o que sentia, sobre cada pedacinho... Receio de assustar, já que estava, ela própria, assustada – ao notar que responder “bem” era pouco (tão pouco!), ver que sentia essa paz, e a alegria...

Sim, tudo vem no seu tempo; sim, a saudade estava e estaria à espreita; sim, não queria pressa, atropelos, ansiedade. Mas, sim, esse era um dia daqueles em que tudo de bom se sente um pouco mais, e decidiu aproveitar. Deliciar-se no êxtase que vinha de cada notícia dele, do coração acelerado, do gosto do beijo em sua boca.

Se devemos permitir quinze minutos por dia para a tristeza, ela deixaria vários outros intervalos para a paixão.

E porque não?

Afinal, ela estava bem.   


Crédito da foto: http://www.mensagenscomamor.com/frases_de_saudades.htm

"Ah, se já perdemos a noção da hora..."



E no intervalo, o amigo se queixava:
- Gosto dela. O problema é essa presa... É como se ela me dissesse: “tá... pronto! Vai ser com você: e VAMO LOGO.” Sabe como é?

Sim, ela sabia. Pressa era um sentimento bastante familiar. Pensou em como essa tal e específica pressa feminina assusta os homens, enquanto a maioria das mulheres passa tanto tempo procurando ouvir justamente o“vamo logo” de alguém que elas verdadeiramente se interessem. Nos sonhos dourados femininos, esse alguém de quem se gosta vem com toda a pressa, diz que ama, que não consegue ficar longe... não?
Ah, sim, os tempos estão mudando... Mas olhava em volta e ainda via balões cor-de-rosa, inflados com pensamentos e ideais do amor romântico.
Pensou na sua própria pressa. Pelo que tinha pressa, na verdade?
Sua pressa mudava o foco e já nem estava mais no mesmo lugar desde a última vez que a procurou. Pensou na alegria de estar exatamente onde estava e em todos os percalços que a trouxeram, pensou que sua pressa era medo, que seu medo era controle – ou a falta dele –, pensou que a solidão, a pressa, o medo, o controle, e tudo mais que tentava não ver só a perseguia (e com mais pressa!), cada vez que tentava fugir.

Lembrou do amor grand hotel, da paixão atropelada pelo caminhão e transformada em ‘bom dia’. Da paixão que ela achou que viveria para sempre. Lembrou que Iaiá era apenas um retrato tirado por alguém que pecou na vontade e se atirou, depois de óbvios utópicos beijos e de constatar que “prever serviu pra eu me enganar”. Iaiá, tão invisível quanto a mulher do filme, projetada milimetricamente, como uma capa de chuva - mas para proteger do amor e suas dores, formatada para poupar seu criador de toda a angústia da pressa (ou da falta dela), de todas as tolices que pertencem ao mundo dos que se apaixonam.

Ela ainda era 'de paixões' e não pretendia mudar. Se seus passos tornaram-se mais lentos, porém, ao longo do caminho, e se a paisagem lhe trazia novos ângulos e sons, sentia-se disposta a seguir.

De longe, ouvia: "- Não se engane, sangue quente corre em suas veias, e a própria natureza não cabe mudar".
Mas há no peito um coração de muitas canções e muitos ritmos – e no olhar a disposição para enxergar um pouco além e, quem sabe, dançar novas músicas.... (talvez, até, um pouco mais lentas).


Referências, citações e créditos: 
Foto: http://super.abril.com.br/blogs/como-pessoas-funcionam/por-que-as-vezes-tempo-voa-e-outras-vezes-se-arrasta/ 
Grand Hotel (George Isarael e Paula Toller)
Retrato pra Iaiá (Rodrigo Amarante)
A mulher invisível (Cláudio Torres)