27 de mai. de 2009

Slowly.

Ela bebia lentamente, goles lentos, vagarosamente saboreados. Não fazia mais idéia do horário, sentia o princípio agradável da embriaguez acontecendo, tinha os lábios dormentes e o corpo relaxado. Até esboçava um sorriso e ao dar-se conta disso riu alto, gargalhou sozinha com os olhos centrados apenas no copo. Apreciava o tom interessante de sua bebida.

Ele aproximou-se e perguntou seu nome. Ela balbuciou qualquer coisa, ele já estava sentando ao seu lado, ela não queria companhia, mas sentia-se cansada demais para discutir, ele pediu mais duas doses, “e esta será a última” – ela pensou.

Ele falava demais, mas não a incomodava. Um tom de voz deliciosamente másculo, palavras que saiam doces no meio de um expandido sorriso. Ele tocou seus cabelos, e seus dedos passeavam sem propósito, deslizavam em espiral pelas pontas, enrolando-as entre os dedos, tocando-lhe acidentalmente o pescoço - o que a fazia arrepiar, e era, por vezes, difícil disfarçar. Não sabia como ele tinha chegado até seus cabelos. Mas não reagia.

Sentia sede pelo toque dele, sentia sede pelos dedos entrelaçados em seu cabelo, pela boca que falava sem parar. Ela queria que parasse, em um beijo em seu pescoço tão lento e longo quanto seus goles aquela noite. Fechou os olhos por um segundo e foi como se ele lesse sua mente, pois em seguida passava as mãos em sua nuca e a segurava, carinhoso e firme. Apoiou a outra mão em sua coxa, pernas dela cruzadas, ele não parecia ligar, nada era incomum ou desconcertante, era ainda o segundo drink, ele agia como se a conhecesse há anos, tocando-lhe com naturalidade e despretensiosamente.

Ela já respirava seu hálito, doce e seco como a bebida que escolheram. Ele passou os dedos em seus lábios, até que ela os entreabriu, respirando pouco mais fundo.

Foi quando ele a beijou pela primeira e última vez. Beijo quente e demorado, ele a sentiu entregar-se em êxtase e imaginou como a noite seguiria bem... Sentia desejo em cada canto daquele beijo, ela não era uma mulher qualquer.

Ela o beijou como se nada mais houvesse. Nem bar, garçons, nem noite, nem tempos. Beijou inteira, intensa e suave. Eles eram lentamente quentes, o que povoava os pensamentos dele com as mais “insólitas idéias”.

Ela descolou sua boca e pela primeira vez na noite, sorriu para ele. Olhou-o com o canto dos olhos, dos pés a cabeça. Era sua forma de agradecer. Puxou a bolsa, levantou-se. Levou os lábios e uma das mãos ao rosto dele, num suave beijo de despedida. Beijou sua face, do lado esquerdo.

Ele segurou sem braço, em protesto. O que ela estava fazendo? Aonde ia?

Ela não disse nada, apenas soltou-se com graciosidade, devolvendo a mão dele até a mesa. Deixou algum dinheiro para garantir sua parte da conta. E se foi.

Essa era ela.
E aquilo era tudo que desejava oferecer.

16 de mai. de 2009

Em que pese...


E nesse dia tiveram seu primeiro “não gosto”.

- Não gosto disso em você.

- E eu, tão pouco.

O primeiro não gosto é sempre estranho. Um atabaque vibrando no meio da orquestra. Um violino desafinando no meio do forró. Erva daninha num jarrinho de flores.

Não gostava de um monte de coisas, só que nenhuma das componentes de sua vasta lista tinha aparecido nele. Isso, até então. Estréia do primeiro item desagradante. E vice-versa? Não podia deixar de pensar que sim. Já que é deste lugar, de quando não gostamos de algo, do nosso descontento e da raiva, que transparece também a nossa sombra. Ela fica ali, exposta – reação que se torna ação, fenda aberta na máscara do novo.

Ambos viram razões pra não gostar, então.

O “não gosto” abusou um pouco seus ouvidos, dormiu do seu lado no travesseiro. “Não gosto”, esse monstrinho verde cintilante, iluminando o quarto bem além do agradável pra o sono ficar. Muriçoca chata e bzzz persistente. Precisava de uma raquete, e depressa.

Pensou em jogar “não gosto” pela janela. Pensou em mandá-lo de volta ao lugar de onde veio, em dar a própria sombra pouco mais de espaço e ignorar o mau-humor alheio que a presença dela costuma causar.

Mas falaram antes que pudesse se decidir. Congelou o tom de voz, tentando ganhar tempo, mais tinha esse defeito de fabricação: era óbvia demais.

- Tá tudo bem? Pensei que tivesse ficado chateada.... – perguntou ele, cutucando, ingênuo, a caixa de pandora - e facilitando as coisas pra ela.

- Fiquei.

- Ficou? Por causa de ontem? (perplexo)

- Foi.

- ..... (perplexo e semi-arrependido? Perplexo e reflexivo?).

- Imaginei. – concluiu ele, atestando o que ela já imaginava sobre seu tom, exatamente: óbvio.

Riu de si mesma enquanto deu vazão ao seu gênio irritadinha. Riu da situação. E riu dele. Perplexo.

E como tudo que a agrada, terminaria em piada.

- Então, se possível, não repete isso e blá, blá, blá... – imperativa. (de irritada, as vezes passava pra imperativa, era um outro mal).

- Ok, não foi o que quis dizer – sincero.

(Todavia, ressalte-se, nem tão obediente assim).

Daí ele vai, e volta com uma lembrança - ode elaborada ao “não gosto” que ela passou uma tarde fuzilando. Ele riu de si mesmo, dela, da situação. Era o cúmulo da cafajestagem. O cúmulo da audácia humana. E o cúmulo do engraçado. Adorou.

E, mais uma vez, sua balança pendeu pro lado dele.



11 de mai. de 2009

Contreras.

Caiu na mesma armadilha mais uma vez. E tinha medo do eco de suas palavras, doces ou amargas, novas ou antigas. Já não se sentia segurar em falar ou escrever nada, suas mensagens, soltas no espaço, eram entendidas por sua densidade e não vácuo que deixavam. Preocupava-se, mas não suficiente para parar de digitar.

Ela quer que o telefone toque, ela quer esquecer que o telefone existe, ela quer ter paz de tantos toques diferentes e desimportantes, ela quer se sentir importante pra alguém e ou que isso também deixe de ser importante. E logo.

Ela detesta ser a menina que chora. Ela quer ser leve e alegre. Ela não quer levar suas lágrimas pra ninguém, mas ela está carente de alguém para secar-lhe as lágrimas.

Ela cansa de sorrir demais, mas ela sorri quando lembra de você. E agora ela chora, achando que você não entenderia nunca. Que você a detestaria por isso. Que você vai achá-la fraca e emocionalmente desestruturada.

Desestruturada. Ela se sente assim também. E ela escreve enquanto espera ansiosa pelo toque do telefone. Ela está ansiosa o tempo inteiro. Ansiosa, ansiosa, ansiosa. Nada parece estar adiantando. Ela liga o som e não parece estar adiantando...

25 de abr. de 2009

“O que os olhos não vêem...” – Parte I, ou: quando é melhor não saber.



Até onde realmente eles não querem ver?

Fui uma adolescente rebelde que queria a verdade a qualquer custo. Depois de trezentos arranhões, diversas pedradas, umas quatro ou cinco facadas,e alguns tiros, fiquei convencida de que a verdade pela verdade nem sempre é o melhor caminho. Ah, ando cansada de mais essa falsa hipocrisia. De levantar bandeiras pelas bandeiras, sem considerar os reais sentimentos por trás disso tudo. Quem não mente, quem nunca mentiu, seja pra proteger alguém, por egoísmo, por medo?

Você estava saindo com aquele cara e de repente encontrou alguém mais interessante que ele, ou apenas percebeu, sem qualquer explicação razoável, que não tá afim. Vai dizer o que? Me desculpe, mas não gostei do seu papo e você me deixa entediada? Sim, porque essa é uma verdade bem comum... Ou que tal: eu detesto o jeito que você me pega. Seu beijo me desagrada. Você não me dá tesão.... Eu descobri que ainda amo o meu ex e o sexo com ele é muito melhor... Seria realmente necessário dizer isso pro outro? Mas é verdade.

Não viveríamos melhor com um “foi ótimo te conhecer, mas preciso ficar um tempo comigo mesma agora” ou quem sabe “reencontrei uma pessoa que ainda mexe muito com sentimentos meus e preciso saber onde isso vai dar...”

Sim, é mentira. Mas, sim, é verdade! Esses são os sutis traços de uma simples verdade resumida: “querido, eu não quero mais você”.

No auge da minha fase “cansei de levar tanta porrada”, tornei-me adepta desta tese e passei a entoar o mantra – se não me disse, é porque é melhor mesmo eu não saber.

Pois bem. Foi bom, mas durou pouco.

“O que os olhos não vêem...” Parte II, ou: Um prelúdio para quando uma coisa é aparentemente prejudicial, mas irá se tornar favorável.



Como para toda regra tem uma exceção, esbarrei na minha. Para esquecer mais rápido um fantasma estranho que tava me rodeando, resolvi ir no fundo do poço das verdades. Até agora não sei dizer se quis saber para esquecê-lo, ou se estava tão exausta de conviver com minhas próprias sombras sem enxergar nada escuro do outro lado... Mas, verdade seja dita, se parte disso tiver sido por “acaso” (e prossigo, ingenuamente, tentando me convencer que não foi minha energia que atraiu isso pra mim), uma outra parte foi devidamente perseguida, e com classe, pela minha pessoa.

Até ai, amigos, nenhuma novidade: quem procura acha mesmo.

E eu achei. Achei você embaixo de tantas e tantas máscaras que me senti constrangida... Ui, fiquei sem jeito mesmo... Por trás de tanto discurso, de tanta frase feita e que eu comprava (ah, tão facilmente comprava), vi você. Impressionante. Tanto tempo ao seu lado e eu não podia imaginar...

Claro que fiz a minha belíssima parte de fugir dessas verdades todas, de seus sinais, suas vertentes. Tapei os ouvidos para minha intuição (exatamente como eu sei que você fez, aliás, com cada projeção a meu respeito... não há culpados ou inocentes...), fechei os olhos.

E incrivelmente agora, pra te esquecer de vez, abri sem medos todas as portas da verdade. A verdade sem peneiras, sem critérios, tem efeitos colaterais dos quais eu já vinha esquecendo... não foi apenas te esquecer o que consegui. Não foi um simples virar de página, bola pra frente, constatar que não era pra mim. Ao abrir as portas e olhar pra você, senti muito mais.

Veio raiva. Traição. Depois, pena. Irritação por sua covardia, desprezo pela sua vaidade, ódio pelas suas intermináveis mentiras. Nojo do seu discurso. Auto-piedade por ter acreditado nele. Pânico por tê-lo defendido. Vergonha. Decepção.

Ah, essa decepção chatinha me acompanha sempre que lembro de você e tem roubado de mim tanta lembrança boa a nossa respeito. Dito e certo, eis o pior efeito colateral da verdade. Abrem-se as cortinas, derrubam-se as máscaras....

“O que os olhos não vêem...” Parte III, ou: Um ensaio sobre a sua cegueira. (e a vida como ela é).



Quer ouvir algo ainda pior? No meio de toda essa confusão, ainda resolvi a briguinha entre eu e minhas sombras. Sim! Pra ser sincera, estou orgulhosa! Modéstia de lado, antes eu, com meus erros, defeitos, antes eu com todas as minhas falhas, ditas, gritadas, antes eu observando-as, crescendo com elas. Antes eu que não tentei escondê-las de você. Antes tudo isso, do que suas falsas verdades e dificuldades veladas, do que sua pose de perfeito e toda essa poeira embaixo do tapete, esperando um vento qualquer pra empestear a casa inteira!

Que patético. Embaraçoso. Eu aqui, encarando a verdade e pensando: bem capaz de saber mais sobre ela, a seu respeito, do que você mesmo, de tanto que evita ver do outro lado do espelho.

É, deixa eu te contar a verdade... todo espelho tem outro lado, toda luz tem sua sombra, todo mundo tem defeito. Você pode fugir, pode correr, pode aperfeiçoar seu discurso, ou mesmo vendê-lo pra quem compra fácil, sem muitas exigências ou perguntas. Você pode até repeti-lo o suficiente para acreditar nele: você não erra, você não mente, você é leal e amadurecido, nunca injusto, nunca incoerente... Será que consegue? Por quanto tempo?

Quando resolver encontrar suas sombras, eu te desejo sorte. Espero que neste momento eu tenha mudado de lugar, e me encontre ao lado da compaixão e do carinho que um dia tive por você. Que o que quer que eu entendesse como amor possa voltar, ser um sentimento puro e bom por você, que eu possa ter maturidade de estender a mão e te receber depois que você atravessar toda a escuridão, porque essa parte, te garanto, você vai ter que trilhar sozinho. Inevitavelmente, eu também espero.

“O que os olhos não vêem...” Parte IV – ou "Meu caminho à morada dos astros."




Já existe em mim algo de melhor. Não sei se foi o passar dos dias, o desabafo, a catarse, a chance de curtir o retorno da minha alegria natural, de trazer de volta as cores aos meus dias... ou de elas voltarem, -simplesmente – acho que nunca vou saber.

Depois de tanto choro e tanta palavra, abro, feliz, as portas para sua partida.

Deixei a raiva esvair-se, e trabalho com cuidado qualquer mágoa que ainda possa estar escondida no meu coração. A decepção já dorme, tranqüila... E quem nunca se decepcionou?

Afirmo somente que te desejo o bem, o bom e o belo.

Desejo que construa tudo o que não conseguimos, que viva o amor, a alegria, o equilíbrio... viva.

Já consegui reconstruir algumas lembranças nossas e quero mantê-las assim, lembranças de dias azuis, de momentos especiais, de alguém que gostei e tive tanto carinho.

Não quero carregar nada além disso. Não quero vingança, não quero peso.

Sigamos em paz, eu e você.

Hoje, entendi quanto o “novo” requer de mim. Não posso ir em frente se trago você. Independe de serem coisas boas ou não. Preciso seguir inteira, e você já não é mais parte disso.

Portanto, pouso um sorriso em meus lábios e te digo: tudo de bom! Seja feliz...

E adeus.

" E lá se vai mais um dia..."



Ok. Ela ligou o ar condicionado. Não era bem “fã” do frio, mas pensou que isso poderia aproximá-los de alguma forma. Ou não. (...) E se fosse exatamente o oposto? E se ele não se aproximasse, e se o frio viesse e tudo ficasse ainda mais distante? O ar condicionado pode ter sido uma má idéia. Ariscava aumentar aquele vácuo que se formava entre os dois travesseiros da cama, e uma dor em seu peito a avisava que não deveria correr tantos riscos.


Deitou-se de costa e esperou. Viu-se rezando para que ele a tocasse, para que interrompesse aquele silêncio estúpido, para que apenas, pura, simplesmente, deixasse.

Desejou que deixassem pra lá. Que numa respiração um pouco mais longa, um pouco mais profunda, se desapegassem do que quer que estivesse prendendo-os em lados separados da cama, naquele e em todos os outros instantes.


Por favor. Bastava chegar um pouco mais perto. Basta não pensar mais nada. Por favor. Sua reza tornou-se esse pedido, repetitivo e ritmado, que dizia, “me abrace, por favor.”


........................................................


Ah, eram então mãos ásperas que os guiava naquele momento.


Seu jeito de funcionar não era nada prático e não, absolutamente, não ajudava. Pensou em mil formas diferentes de explicar.


Apegou-se a ele. Ela era de se apegar a coisas e pessoas, de quando e quando. Algumas vezes, se apegava a um trejeito ou mania específica, como um erguer de sobrancelhas, o jeito engraçado de se enroscar no travesseiro, as inúmeras vezes que repetia que a amava num mesmo dia. De outras, apegava-se a pessoa. Como se uma pessoa pudesse ser um cachecol, macio e suave, amarrado em torno do pescoço. Um piercing escondido. Um amuleto no bolso esquerdo.


Apego é algo diferente de amor. Ela amava e já havia amado e esquecido. Se apegara a ele, sua presença e seus carinhos, e não queria pôr nada disso a perder.


Estava, claro. Por isso, pensou mil formas diferentes de explicar.


Sabia como teria que ser. Não que quisesse assim, ah, queria tantas coisas, queria ser tantas coisas, queria espelhos maiores, queria saber o que queria sem precisar se esforçar tanto! Mas teria que ser assim. E assim não estavam sendo eles. Faltava... Assim:


- “blá, blá, blá, que raiva, blá, blá, blá, tudo errado, blá, blá, blá, já nem sei mais do que estou reclamando, que blá, mas tô irritada e blá, blá, blá, vai sobrar pra você”.

(“Blá, blá, blá” não é nada agradável. “Blá, blá, blá” é um saco.)


É quando, depois de um pequeno e tortuoso intervalo, chega a culpa. Os “blás” já estão todos bem soltos quando a culpa começa a corroer suas artérias e queimar no peito. Não, na cabeça. No peito. No estômago? Enfim, ela queima. Queima e se dissolve em lágrimas ainda mais ridículas do que o amontoado de “blás” anteriores.


“Porque eu sou assim? Porque disse isso? Alguém me amarre e me tranque num hospício, sou louca e problemática e provavelmente mereço segundos lentos de tormenta e solidão que durem para sempre”.


(OBS: Não riam. Se essa voz patética gritasse na sua cabeça, saberia do que estou falando. (e quando digo “não riam”, desculpe, mas não pense que falo com você, quem quer que seja, “leitor”. São outras múltiplas vozes, internas e ainda mais irritantes que a controladora e melodramática culpa)).


Pronto. Ai está o “timing”. No meio das lágrimas e da culpa, o “timing” dele diz algo parecido com: “sou um bloco de gelo, estou de saco cheio de sua baboseira de menina mimada, e agora, vê se dá um tempo”. Time.


Foi assim que nos perdermos. Entre “blá-blás” e blocos de gelo.


Foto: http://o-blog-verde.blogs.sapo.pt/tag/mar

Texto do acervo pessoal, não atual.

Dualidade - Parte II



Ele

Um raio.
Decidiu num raio.
Após outras noites, também anoiteceu
Estabeleceu suas metas num traçado preciso
sem margens recortadas
sem páginas em branco
de caneta preta, ferro, fogo, sem borracha
traçou seus passos na maior escala
nesse mapa que guardou no bolso.

Já bolado e prático o esquema
saiu sozinho pelo lado da cama
despediu-se com um beijo qualquer
e foi sem deixar notícia
sem prévia, e sem aviso.

Quando já tinha dado como certo seu caminho
foi bem no meio do mapa,
uma curva.
Esgueirava esse rio, enchente de lágrimas
sufocando seus planos,
esgotando toda e qualquer paciência.

Escorregou na culpa,
entre cartões e presentes
entre trezentas e repetitivas ligações
era ela e um coração derramado
com olhinhos pequenos de esperança

A segurou nos braços, enfim,
e pensou mesmo em perder seu mapa
em mudar seu rumo,
selar novo beijo,
escrever outra estória.

Pobres e pequenos pensamentos
se desfizeram em marca antiga
de vozes e fantasmas que carregava
de memórias e gestos
somados a intensa complexidade
de todo mal entendido que era ela.

Pelas frestas, escorreram seus planos
esperanças, desejos,
pelas frestas de uma porta trancada
ela e seus choques se dissolviam.

E do outro lado,
olhos castanhos miravam na fechadura.
Ela.
Viu por fim sua dor, seus medos,
sua raiva, angústia tanta,
viu restos de sonho, adormecidos,
viu tantas outras portas fechadas e cofres lacrados com cadeados
Ela viu de um tudo, mas procurava, em vão.
Não havia.
O amor.


Foto: http://dualidadeondulatoriacorpuscular.blogspot.com/2008_10_01_archive.html

Dualidade - Parte I



Ela

Ela caminhava triste, pequenas curvas na testa.
Nuvem cinza pesando os ombros.
Assim, clichê,
ele veio com o sol e a fez rir.
Tornou-se sua luzinha favorita, tilintando,
da qual não conseguia, sem porquê, se afastar.
E ela apegou-se tanto e rápido, que mesmo sozinha,
já contava das estrelas no céu,
esqueceu da nuvem, da tristeza.

Selaram seus sonhos num beijo,
selaram seus beijos na chuva e no sol,
numa praia deserta, no mergulho mais fundo, no mar.

Ela caminhava e não ia só.
Em suas mãos, outras mãos
em outras mãos, esperança.
Seguiam juntos, num balanço novo
na sintonia única dos olhos que brilham
- juntos.

Até que assim, sem saber como ou porquê,
ela correu. (ops, outra vez...)
Correu e perdeu-se
entre malas e salas,
entre viagem, bagagens,
perdeu-se entre férias, diárias
ela perdeu-se em suas próprias (e assassinas) rimas.

Pois foi neste outro dia, acordou sem ele.
Seu pé procurou em vão
pelos lençóis
e a garganta fechou, sem voz.
Perguntou.
E veio a resposta, trovoada no centro da manhã.
Enquanto as palavras lhe faltaram,
percebia palavras virarem lágrimas
lágrimas excessivas, exaustivas, derramando
que seguiam nesse rio
navegando longe.

Tentou respirar, por lágrimas de volta em palavras,
por palavras cadenciadas em papel,
tentou segurá-lo um pouco mais,
respirá-lo dentro da sua mais completa falta.
Sentia embolar no nó da dor do amor que vai.

Foi quando suspirou,
e ainda triste o viu voltar
sem flores, calado
sentou do seu lado
e concordou.

Ela pôs vestido novo, amarrou o cabelo
perfume de rosa, batom de jasmim
ela o desejou de tanto!
Foi que a ausência dele a perfurou de saudade.
Ela desejou bebê-lo em longos goles
e notou que ele esvaia,
estranha a água que evapora
antes de lhe tocar a garganta.

Rondou o travesseiro por seus cheiros
apertou forte seu corpo deitado,
mas já não havia cheiro,
nem corpo
já não havia “te amos” de manhã
ou recados em canção
já não havia olhos apaixonados
ou saudade apertada
já não a via,
nem havia
amor.

24 de abr. de 2009

"Saudade da bebida que estava bebendo"

Nunca Elisa Lucinda soou tão clara. Vontade de beber de uma só vez toda a garrafa, de ter você engarrafado, devidamente compartimentado, a minha total e absoluta disposição. Hoje, ainda, te odeio mais que ontem. Odeio ainda mais porque o telefone tocou, odeio ainda mais porque atendi, odeio pela saudade de cada detalhe seu que eu não esqueço. Odeio esse vazio que se fez quando você saiu, e odeio um pouco mais por saber que tudo o mais o que te envolve é errado: o certo é o vazio, a saudade, esse incômodo no peito pelo telefone que toca, a minha ansiedade em atender.

Ando agora engasgada por aí. não escuto você, não atendo a mais ninguém. Nada mais me concentra e o ano vai acabando (sim, time to change...) – se não mudo eu, muda ele, sem pena da minha desconcentração (desconexão?).

Nunca nada foi tão incerto. Meus todos outros planos, mal se vêem nos meus olhos. Pelo menos essa noite, só tenho você e sou apenas sua – pelo menos hoje não brigue comigo, não reclame. Hoje você não é mais um. (piada, piadas... eu naufrago com algum senso de humor). Nos meus olhos, apenas você, exatamente porque foi embora.

O melhor é que não perdoou o beijo que você não deu (guardo algum consolo, me parece. Qualquer coisa que alimente essa raiva por querer você). Justamente aquele, naquela horinha, pouco antes... não perdoou. O seu não-beijo foi um tapa, bem no meio da minha testa, um outdoor bem grande, um discurso de megafone – “não sou seu!”. Outra vez, pensei em te matar.

Engraçado como paixão e morte se combinam. É tudo um não saber, misto de vontades que não distingo: é querer beijar e/ou enforcar, enforcar e/ou beijar com todas as santas forças (diabólicas?) desses meus braçinhos, não sei se derreto ou me estrangulo também. Tenho essa irritação patológica. Deveria ser objeto de estudo, estou certa de que não sou a única.


Obs - postagem de texto do arquivo pessoal.

10 de mar. de 2009

"E você, será que canta calada aquele frevo axé?..."


E na manhã seguinte, vitória decretada, com um simples telefone tocando às oito da manhã... Salvem-se todos, monstrinhos e pesadelos, foi um príncipe, lindo e imperfeito, imperfeito e lindo, que veio em meu resgate. Não, não acho que corria perigo. Talvez, sozinha, pudesse ganhar bem esta guerra...

Mas quem se cansa de príncipes e resgates, que se cansa de demonstrações espontâneas de carinho? Quem vai reclamar de um pouco de atenção? (Não eu, que saiba... rs).

Só posso jurar que foi uma bela vitória, Palcar de 2 x 0, contra meus fantasmas, e que ambos os gols foram tudo de bom.

Exatamente como você na minha vida. A diferença é que eles foram (pelo menos agora, rs).
Você está.

"Pra mudar minha vida"

E ainda tenho tanto pra conhecer da sua alma. E você ainda tem tanto pra conhecer da minha. E eu não consigo tirar dos lábios o sorriso que você deixou quando saiu. Lembro e relembro os detalhes das nossas conversas ontem, como você foi se revelando, cada palavra, cada olhar, você, lindo, tão perto...

Lembrei de cada estória minha, de cada dor pelos relacionamentos que se foram e pelas coisas que jamais vou poder voltar atrás e reverter, por cada erro, cada angústia, toda intensidade, as entregas, as perdas. Tudo vem como um caminho trilhado até você, tudo vem como passos marcados (algumas curvas, muitos tropeços), todos para que estivéssemos agora, no exato agora, eu, você, e a bagagem que pretendo mandar embora (ficar leve, sem peso, sem passado...). Ficar mesmo só com passos, as estórias ensinadas por cada cicatriz, e com o coração em paz, o que é tudo que quero deixar perto de você e te pedir para cuidar, sempre.

Foi seu, sim, o sorriso que vi brilhando quando me afastei desse mundo de gente raivosa, foi você, meu pôr-do-sol... (será que ainda vai lembrar da tradução da música? rs.) Ou digo apenas que o sol não se pôs, nem nasceu pra mim nesta noite. Meu sol, a noite, o dia, tudo foi só você, e você foi, constante.

“... pra recomeçar...”

Ps – “E o povo tá que fala...” kkkkk.... (não resisiti!)

9 de mar. de 2009

"Além da brincadeira..."


Era um cenário épico.

Medieval.

Entraram juntos, fugindo da festa, do barulho, da música estridente que tocava lá fora.

Ela princesa, (ou cortesã - já não se sabe bem, pois que gostava de passear entre suas próprias facetas, entre as fases da lua. Talvez princesa. Talvez não só...) e seu príncipe - mascarados, desconhecidos.

Irresistível se encontrarem exatamente ali. Escondidos, pareciam seguros, apesar dos barulhos do outro lado da porta, apesar deste certo receio dela de que seriam, a qualquer momento, descobertos, de que o relógio bateria meia-noite (ou meio-dia), penderiam-se as máscaras, não teriam mais fantasias...

Agora, já era bem tarde. Ambos haviam bebido da mesma taça, e, embriagados de carnaval, caiam cansados, lado a lado, tombando num sono profundo e com sonhos.

Ele a abraçou apertado. Ela respirou profundo. Dormiam o sono dos anjos, em outro tempo, outro espaço, onde ela sentiu-se segura e querida, onde ele se sentiu a salvo, cansado das guerras e batalhas, onde ele pôde parar de se preocupar e, simplesmente, dormir.

Durante a noite, em alguns momentos, ela abriu os olhos encantados e pensou no dia seguinte. Como seria, como ele seria, sem máscaras, sem fantasia, como seria seu príncipe encantado quando os relógios acelerassem, quando o tempo fosse aquele mesmo outra vez, novo, velho, quando acabasse o mistério e a névoa que envolve todos os amores que mal se conhecem, quando o relógio batesse a hora marcada e terminasse o feitiço?

Será que ainda gostariam um do outro? Será que aquele lugar, aquele abraço apertado no meio da noite ainda seria o lugar onde ambos desejariam, mais do que em qualquer outro, estar?

Ela não teria as respostas. Não ainda. Sabia só que aquele era seu lugar agora. Sabia que acordariam, que o carnaval seguiria, que as músicas tocariam e multidões os guiariam para outros e outros lugares. Sim, se afastariam.

A manhã seguinte, assim como o dia seguinte - incógnitas. Todo o futuro – incerto, como todo e qualquer futuro sabia ser, aliás.

E, naquele segundo, ela amou a incerteza, tanto quanto amou aquele abraço, tanto quanto amou seu sono longo e profundo... não havia expectativa, não havia promessa, não havia garantia.

Havia apenas isto: uma constatação: depois de profundas noites de tristeza, imersa em si mesma, ela estava ali, ao seu lado. E ela sorria.

Ele era presente. E presenteavam-se com suas presenças e com a paz de seu sono.


Ps - " de pierrot e colombina..." rs.
" E quando deitamos e relaxamos nosso corpo, podemos sentir intensamente. Físicos e teóricos a chamam de força da gravidade. Nós a sentimos como colo. É o colo da mãe terra, no mais profundo acolhimento."*


E tantas vezes que precisei de colo sem notar o quanto poderia ser simples...


* Um dos ensinamentos nas meditações da Hatha Yoga.

8 de mar. de 2009

Sempre dói, mas sempre passa.

E ela sabia. Sabia e lembrava todas as vezes que doeu, sem que isso significasse absolutamente nada agora. Da última vez foi pior. Foi? Isso já não sabia... De certa forma lembava o estrago - noites mal dormidas, seguidas de dias cansados, horas lentas demais, ora longas demais, nada de fome, vontade de comer o mundo. Lágrimas. Muitas lágrimas. Mas não conseguia comparar nada com o aperto que sentia agora. Hoje, seria a pior dor de sempre.

Viu como passa? Você nem lembra direito a dor do estrago...

Pensar, porém, não estava ajudando nada. Deveria, ok, mas não estava.

E daí se ela estava perdida, e daí se queria tentar uma nova profissão a cada segundo, e daí se nos minutos seguintes continuava na mesma profissão, imaginando como seria se tivesse mudado no segundo anterior? As respostas não estavam nele, isso decerto.
Aliás, estas respostas aparamentemente não estavam em lugar algum. Exatamente como ela, vagando neste vácuo intertemporal que inventou para passar a chuva.

Você está mesmo aqui, lindinha? Porque parece estar longe... em algum outro lugar.
Mais uma vez: exatamente.

Perguntou-se, por fim: se as respostas estão em lugar algum, e eu estou em lugar algum, elas deveria estar bem por aqui....
A gente podia se "bater" por ai. Hum?

Nada como mais um dia sem hipocrisias.

7 de mar. de 2009

Vamos celebrar a estupidez humana?



Gente,
Com tem maldade nesse mundo...
Tá, vou contar a estória e ai vocês chegam a suas próprias conclusões.

Era uma vez um menino e uma menina que namoravam há muito, muito tempo.

Um dia os dois se chatearam e tiveram uma briga feia. A menina estava muito triste e confessou sobre o ocorrido com a colega ao lado, numa sala com outros coleguinhas de trabalho.

Ocorre que, Sras. e Srs., nesta sala estava um outro menino, a quem chamaremos de elemento “X”. Elemento “X” tem papel fundamental na estória, mas ainda não aparecerá nesta cena.

O menino também estava triste, até que recebeu um email da menina. Mal teve tempo de se alegrar com o nome dela na caixa de entrada, percebeu que abriu mesmo a caixa de pandora. Os dizeres eram ofensivos e grosseiros, ela dizia detestá-lo, não entender como perdeu tanto tempo com ele, que ele não a procurasse mais, que isso e aquilo e acolá. Foram diversos e-mails, todos com o mesmo conteúdo nefasto.

Frustrado, ele desapareceu no carnaval (meio inutilmente, já que esta criatura pegou uma gripe no primeiro dia e ficou de molho até os últimos...).

Ela também devia estar frustrada, já que era tempo de eventos festivos, e ele sumiu completamente, o que era um péssimo sinal.

Ok. Pausa. Você deve se perguntar por que ela estava frustrada, já que ela mesma enviou emails ofensivos... Pois bem, chamemos agora o Elemento “X”.

Num mundo paralelo, o das pessoas malvadas, Elemento “X” ouviu a conversa de sua coleguinha, objeto de seu afeto, com a outra coleguinha da mesa ao lado. Neste momento, sua mente maquiavélica bolou um plano.

Destaquemos que Elemento “X” convivia com o casal de protagonistas. Elemento “X” saía com o casal. Ele e a namorada dele. Elemento “X” era totalmente, aparentemente, normal.

Então... Elemento “X” criou um email, o qual, caros senhores, preciso demonstrar empiricamente, porque o sujeito alterou um PONTO no email já existente da sua colega de trabalho. Exemplo:

Email real: margarida33@blablabla.com

Email fake: margarida.33@blablabla.com

Isso é sério. Seríssimo...

Vamos inverter o ditado: o que os olhos não vêem, o coração SENTE... E os olhos dele nem repararam um ponto a mais.

Pois bem. O tempo se passou e história, graças à Jah, tem final feliz.

Um belo dia, cansado de ouvir tantas ofensas, ele a procurou no MSN, e questionou os emails. Ela levou um mega susto, jurou inocência e correu com ele atrás das evidências desse complô (ESSE SIM - um complô!).

Descoberto o email falso, eles cataram um desses mega entendedores influentes de informática e conseguiram localizar o IP e endereço do dito cujo, quem, em uma ligação “grampeada” e após muito grito da vítima, confessou seu crime.

Isso é sério. Seríssimo...
Aconteceu ali, do meu ladinho.

Agora eu pergunto, Sras e Srs, que mundo louco é esse?????

São Jorge me proteja, os cães estão soltos e agora são, inclusive, tecnológicos...

Ps - espero que ningupem se ofenda com a minha narração. Os fatos aqui descritos são ficção. Qualquer semelhança com a realidade, é mera coinciência. Igualzinho na novela.